Você ama seu bichinho de estimação. Quer adotar todos os animais de rua. Adora estar em contato com a natureza. Acha todos os cãezinhos e gatinhos uma fofura. Sua matéria preferida é Biologia. Quando te perguntam o que você quer cursar, não tem dúvidas, oras: Medicina Veterinária! Mas será que a faculdade vai contemplar todas essas expectativas?

Em mais um post da Série Profissões, conversamos com o Lucas, médico veterinário neurologista, e com a Erika, estudante da graduação, que contaram o que eles mais gostam e também o que não acham tão legal assim no curso. Será que eles eram apaixonados por animais quando decidiram fazer Veterinária? Vem descobrir!

Sim, você estava certo: tem muita gente (uma galera!) que entra na Veterinária querendo trabalhar com pequenos animais. A maioria chega motivada pela paixão que sente por cães e gatos, principalmente. E também porque gosta de Ciências Biológicas. Com o Lucas Colomé foi exatamente isso que aconteceu: ele se formou e se tornou um salva-vidas destes pequenos.

VET1FINALEsse é o Lucas com um de seus pacientes felinos <3 Arquivo pessoal.

Mas a trajetória até trabalhar com os pets não foi tão fácil. Para começar, dentro da faculdade, Lucas precisou passar por muitas disciplinas teóricas até finalmente ter contato com os bichos.

 

Quando começamos o curso de veterinária, achamos que logo teremos muito contato com animais, com práticas, manejo. Mas isso demora alguns semestres para acontecer.”

 

Sem falar que o estudo não se limita a cães e gatos: você vai lidar (e ter contato) com porcos, bois, aves. “A Medicina Veterinária é um curso bastante prático! São muitas disciplinas e com áreas bem distintas. Estudamos desde as espécies domésticas, como o cão, o gato, o cavalo, os ruminantes (bovinos, caprinos e ovinos), aves, suínos, peixes, coelhos, até espécies silvestres e exóticas”, conta Lucas, que se formou na Universidade Federal de Santa Maria em 2003.

No meio da graduação, houve um episódio que foi determinante para que ele decidisse seguir na área da neurologia animal. “Certa vez, em um jogo de futebol, caí e bati forte a cabeça no chão. Precisei ir ao neurologista e me encantei pelos exames diversos (e às vezes coloridos), pelos termos usados e com a habilidade com que o médico conduziu o caso.” Mas até chegar a ser um neurologista veterinário e referência na área aos 35 anos de idade, foram anos de estudo! Ele fez residência em Clínica e Cirurgia Veterinária na UFRGS, mestrado em Cirurgia na UFSM e doutorado em Medicina da PUCRS. No meio do caminho, descobriu outra paixão: a docência; ele deu aulas em três universidade do Rio Grande do Sul.

VET2Consultas, exames e cirurgias de pequenos animais fazem parte da rotina do Lucas. Arquivo pessoal.

Lambeijos e Aubraços

Hoje Lucas dedica a vida a salvar a dos bichinhos em hospitais e clínicas de Porto Alegre, região metropolitana e também na Serra Gaúcha. E ama o que faz! “‘Quando se faz o que se gosta, não se trabalha. Esse é o ditado mais certo que eu conheço! Eu enfrento, em muitos dias, uma rotina diária de trabalho de mais de 12 horas. E canso, claro, mas canso feliz! Essa é a diferença! Tem situações estressantes, complexas, em que muitas vezes a doença nos vence, ou o diagnóstico se torna complicado de concluir.” Ele afirma:

 

Tem dias ruins, como quando perdemos um paciente, por exemplo, em que queremos voltar logo pra casa e terminar o dia na cama dormindo.”

 

Para Lucas, a melhor parte de ser veterinário é o reconhecimento que recebe dos tutores e, mais ainda, dos animais. “Nenhum preço paga esse sentimento de dever cumprido. No meu caso, ver um animal voltando a andar, por exemplo, após ficar tetra ou paraplégico é uma sensação indescritível”, diz. “A pior parte, em contrapartida, é saber que tudo que podia ser feito foi realmente tentado e, mesmo assim, a doença acabou nos vencendo”, detalha Lucas.

VET3Lucas cuidando da recuperação de um cachorrinho, após operá-lo. Arquivo pessoal.

Quem não tem cão, caça com cavalo

Para quem gosta tanto de bichinhos, lidar com a vida daqueles que são muito importantes afetivamente para os humanos emociona, né? Mas já é bom avisar: na faculdade de Veterinária também tem gente que não quer saber de trabalhar com pets! Essa é a história da Erika Ronconi, que faz o curso na Universidade Federal do Paraná (UFPR), setor Palotina. O negócio dela é cavalos!

“Entrei querendo muito mexer com equinos, mas agora participo de um projeto com gado de leite e estou meio tendenciosa para esse lado, até pelo fato de, no Paraná, essa área ser maior do que a de equinos. Então ainda não sei o que vou seguir, só sei que pequenos animais eu não quero de jeito nenhum!”, avisa.

VET4Olha aí a Erika com seu bichinho preferido 😀 Arquivo pessoal.

Erika tem 27 anos e está no quinto semestre do curso. Esta é a segunda faculdade que ela faz: a paranaense já é formada em Biologia, mas decidiu tentar uma outra graduação, uma que a “fizesse ganhar dinheiro”. Inicialmente ela pensou em Arquitetura: ”Mas, quando fui conhecer a feira de profissões da UFPR, vi que não era para mim, pois precisava desenhar muito bem e eu não levo muito jeito para isso”, conta ela, rindo.

 

Por fim, fiz o teste vocacional oferecido pelo cursinho e o resultado mostrou que eu levava jeito para Engenharia Florestal, Engenharia Ambiental e Medicina Veterinária. Como não sou muito ligada em cálculos e sempre fui apaixonada por cavalo, eu optei pela Veterinária.”

 

Como ainda está na metade do curso, Erika está recém entrando nas matérias específicas, que requerem mais prática. “Existe muita teoria no curso, principalmente no começo, porém também há bastante aulas práticas, mas não tanto quanto eu gostaria. Temos práticas onde vamos conhecer granjas de suínos, aviários, fazendas de gado de leite, práticas de necrópsia, prática no hospital veterinário para aprendermos a fazer consultas tanto em pequenos quanto em grandes animais e também temos práticas nos laboratórios da faculdade”, explica.

 

Para a Erika, a prática é a parte mais legal da faculdade de veterinária: “É onde você consegue ver as coisas acontecendo e sentindo que aquela vida depende exclusivamente de você e dos seus conhecimentos.”

 

Já o lado menos legal do curso são as aulas exclusivamente teóricas, claro! “Você fica apenas imaginando onde e como utilizar aquele conhecimento, sem ver muita empregabilidade para aquilo. Ainda mais para mim, que sou mais de lidar no campo do que ficar sentada em uma sala de aula”, diz.

VET5Erika durante as práticas na faculdade de Veterinária da UFPR. Arquivo pessoal.

E o mercado de trabalho?

Deu para perceber que você pode trabalhar em um monte de lugares sendo formado em Medicina Veterinária, não é?

“Em uma capital ou cidade de grandes populações, o veterinário é mais ligado à medicina de pequenos animais, à parte comercial de empresas do setor animal, ou atua no desenvolvimento de produtos na indústria. Já no interior ou cidades menores, ainda temos o veterinário generalista, que cuida da saúde e criação de muitas espécies ao mesmo tempo”, explica o profissional.

Segundo Erika, há algumas áreas com mais vagas do que outras. “Avicultura, por exemplo, que está crescendo muito nos dias de hoje. As opções de trabalho são infinitas, desde pequenos animais, até trabalhar com inspeção de alimentos e também na docência e em laboratórios de análises”, conta.

 

Existem muitas áreas para trabalhar, muitos concursos, tem bastante oportunidade!” diz Lucas.

 

E o salário, será que é possível já entrar no mercado de trabalho ganhando bem? Essa o Lucas responde: “Posso dizer que a veterinária na minha área não é um curso que remunera bem rapidamente logo que se sai da faculdade. É necessário mais tempo de investimento em educação continuada para que nos destaquemos no mercado de trabalho. Isso, é claro, sem falar no grande benefício que é dominar a Língua Inglesa, não só na veterinária como em qualquer outra área.”

Dicas, pra que te quero!

  • Mesmo que você entre querendo trabalhar em uma área específica, não feche as portas para outras frentes: “muitas vezes nos apaixonamos durante o curso por algum tema que não conhecíamos”, diz Lucas;
  • A faculdade por si só não te prepara para o mercado. Faça estágios, iniciação científica, vá a congresso e cursos;
  • Tem que gostar muito de Biologia! E no mínimo simpatizar com Química (e Física, em alguns casos);
  • E atenção: não pode só gostar de animais! Tem que gostar também de lidar com pessoas, pois é com elas que você vai falar, já que os animais não podem dizer o que sentem;
  • Tem que ter estômago: você vai precisar aguentar procedimentos cujos cheiros muitas vezes não são nada agradáveis; e as aparências, nada bonitas;
  • Ter “sangue frio” também é importante: o veterinário é o único profissional que tem em mãos o poder de tirar a vida através da eutanásia, e às vezes essa decisão terá que ser tomada para alívio do paciente e do tutor também.

Curtiu? Os relatos do Lucas e da Erika te ajudaram a decidir se a Veterinária é o seu curso? Se você ainda está em cima do muro, confira as outras entrevistas da nossa série sobre profissões! Elas vão te dar uma mãozinha nessa decisão! Até a próxima!