Sabemos que a Matemática não é o forte da maioria dos estudantes brasileiros: 67% estão abaixo do nível de conhecimentos básicos, segundo um estudo do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (somos o 58° lugar entre 65 países. Assustador, né?).

Mas, se por acaso você é uma exceção, se dá bem com os números no Ensino Médio e está pensando em continuar arrasando nessa matéria fazendo a faculdade de Matemática, vem conhecer as histórias da Marline e da Alana! Elas vão te contar como é o curso, com suas alegrias e suas dificuldades, em mais um capítulo da nossa série sobre profissões.

 

É bem comum que os “bixos” da Matemática tenham sido os melhores alunos da disciplina no colégio. – 

 

A Alana da Rosa Ferreira, por exemplo, era tão boa com contas que sempre ajudava os colegas a fazer os exercícios. A Marline Ilha da Silva também: tinha tanta facilidade que ensinava a matéria para os amigos que não se davam bem com números (e imaginamos que não eram poucos!).

As duas entraram no curso de Matemática da Universidade Federal de Santa Maria (RS) com expectativas parecidas: seguir fazendo os cálculos que aprenderam na escola. Só que a faculdade, essa danada, era um pouco diferente (spoiler: é muito mais difícil!). “Eu esperava que soubesse pelo menos um pouco de cada conteúdo para o entendimento das matérias da graduação, mas percebi que não é bem assim”, conta Alana, que, com 19 anos, está recém no primeiro ano e já sentiu a pressão.

 

A realidade é que você não aprendeu tudo sobre a Matemática durante o seu ensino fundamental e médio”, conta Alana.

 

Só para variar, vamos conferir também a opinião de uma veterana? A Marline tem 27 anos. Ela se formou em 2011 e faz Doutorado em Matemática Aplicada (estamos resumindo o currículo dela, ok? Já, já você vai entender). “Quando entrei, eu não fazia ideia de como seria o curso. O que eu esperava era entender de onde surgiam fórmulas e resultados que eram utilizados na escola. Além disso, imaginava que no curso seria ensinado como dar aulas de Matemática nas escolas.”

E como foi na real, Marline? “Em partes, minhas expectativas foram alcançadas, porque no curso até são feitas demonstrações de teoremas de conteúdos estudados no período escolar. Mas, na minha opinião, a faculdade não me preparou para entrar em uma sala de aula”, alerta.

Mas então vou ser professor de Matemática?

Já que a Marline tocou no assunto, vamos entrar também nessa questão: todo mundo que faz faculdade de Matemática vai ser professor da disciplina? Calma, não é bem assim! 🙂

 

Primeiro você tem que saber que existem duas habilitações em matemática: Licenciatura e Bacharelado. –

 

A opção por uma delas é feita na hora do vestibular, e ninguém melhor para explicá-las do que quem fez os dois cursos, certo? Adivinha quem tem ambos os diplomas? Ela mesma: a Marline (nós avisamos que a menina tinha experiência).

É o seguinte: a licenciatura autoriza o graduado a dar aulas de Matemática para os ensinos Fundamental e Médio, tanto em escolas públicas quanto em particulares.

Bacharelado é para quem quer atuar em outros campos, como bancos, empresas e mercado financeiro, e também para os que desejam se dedicar ao ensino e à pesquisa em universidades (nesse caso, precisa ter mestrado e doutorado, viu?).

 

Com relação às disciplinas, existem algumas em comum. No curso de bacharelado não tem as disciplinas pedagógicas, voltadas para o ensino. Porém, são acrescentadas outras com nível de dificuldade maior, bem mais complexas. Como tenho os dois cursos, ao compará-los, para mim as disciplinas do bacharelado foram bem mais complicadas. Resumindo: apesar de existirem coisas em comum entre os dois cursos, eles são bastante diferentes!”, explica Marline.

 

foto1 Marline durante seus estudos do Doutorado em Matemática Aplicada. Arquivo pessoal.

Escolher errado, quem nunca?

Então, futuro matemático, deu para ver que há um campo de atuação bem amplo na profissão, não é mesmo? E também que a escolha da habilitação tem tudo a ver com o trabalho que você quer fazer, certo?

 

#ficadica para prestar bastante atenção nessa parte, para que você não descubra dentro da faculdade que optou pela habilitação errada. Pode não parecer, mas isso ocorre com frequência. – 

 

Aconteceu com a Alana. Quando ela foi se inscrever para o vestibular, fez uma pesquisa rápida, conversou com algumas pessoas e acabou escolhendo o bacharelado: 

Com a entrada no curso, me interessei mais pela licenciatura. E hoje, não só me vejo, como quero ser professora. É por isso que eu vou mudar para licenciatura, através da transferência interna.”

 

Inclusive ela já trabalha como voluntária em um cursinho pré-vestibular para alunos de baixa renda <3.

Com a Marline, foi o contrário: já entrou com a vontade de dar aulas em escolas, então foi para a licenciatura. Mas, no meio do curso, ela participou de um projeto de iniciação científica, gostou da área da pesquisa e resolveu fazer o bacharelado também. Foi esse curso que despertou nela a vontade de investir no mestrado (que fez na Universidade de São Paulo) e doutorado (que está cursando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

foto2Essa é a Alana na sala de aula na UFSM, onde cursa o primeiro semestre do bacharelado em Matemática (mas logo ela vai trocar para licenciatura). Arquivo pessoal.

Calculando o salário

Agora que você já sabe que Matemática não se limita a dar aulas da matéria para crianças e jovens, vamos falar sobre outro tipo de números: os do contracheque.

 

Aqui já podemos visualizar um gráfico: os salários são inversamente proporcionais à quantidade de vagas. Não entendeu? A gente explica. –

 

Na prática, significa que nas áreas onde há mais oferta de vagas (como professor de ensino médio, por exemplo) o salário é mais baixo. Por sua vez, as oportunidades para atuar em bancos e indústrias ou ser pesquisador ou professor universitário costumam trazer salários maiores. O problema é que as vagas com a remuneração mais atrativa (percebeu que são para os bacharéis?) estão quase sempre nas capitais e grandes cidades.

 

A parte boa é que você dificilmente vai ficar desempregado. – 

 

Há uma carência muito grande de professores de matemática de ensino fundamental e médio em todas as regiões do país. Então, mesmo que você opte pela licenciatura, com salários mais baixos, sempre terá onde trabalhar.

Dicas, para que te quero!

  • Ter persistência: é um curso muito, muito difícil (inclusive para quem ama Matemática). Você vai ir mal em provas (é normal) e pensar em desistir mil vezes;
  • Se você gosta pelo menos um pouco de Cálculo, aposte no curso. “E, mesmo que não ame a Matemática, tente, seja corajoso”, incentiva Alana;
  • Saber a linguagem básica de programação é um diferencial (e dificilmente se aprende isso dentro da faculdade);
  • A faculdade não se resume a um quadro negro cheio de equações enormes: o mais importante é entender para que serve o cálculo e suas respostas, e não só resolvê-lo;
  • O início do curso pode ser bem desesperador, pois o ritmo é bem diferente da escola: mas mantenha a calma, porque isso vai passar;
  • Se não passar, ao menos você tentou! Olha que recado legal a Alana deixou: “Só podemos falar ‘não consigo’ se pelo menos tentarmos, pois todos temos a capacidade de tentar. Assim você poderá dizer ‘eu não consegui, mas tentei’”.

E aí? Se inspirou nas histórias da Marline e da Alana? Deu vontade de fazer Matemática, ou agora tem certeza que esse curso não é para você? Se ainda está em dúvida, confira os outros posts da Série Profissões; eles vão te ajudar a se decidir!

Até a próxima! 🙂