Com ou sem obrigatoriedade de diploma, o Jornalismo continua sendo um dos cursos mais procurados nos vestibulares do Brasil. Vamos te contar aqui na Série Profissões um pouquinho sobre a experiência de estudar Jornalismo e da rotina da profissão. Quem sabe ser jornalista não é a sua praia? Conversamos com Thaís Cristina Souza da Silva, estudante de jornalismo de 26 anos, e com Évelin Argenta, de 29 anos, jornalista formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Por que jornalismo?

Thaís nos conta que sempre gostou muito de escrever e de saber as novidades sobre tudo, em especial música, séries, cinema e tecnologia. Ela não se identificava com nenhuma outra coisa muito específica, mas sabia que não queria trabalhar com tecnologia porque não curtia Matemática, e não achava que tinha a criatividade necessária para trabalhar em áreas como Cinema, por exemplo.

A partir dessa paixão pela escrita, Thaís começou a considerar Jornalismo como uma opção de curso. Assim como Thaís, Évelin, que trabalha como repórter da rádio CBN, gostava muito de ler e escrever, e a partir disso começou a pensar em profissões que permitissem contar a história das pessoas.

 

Chegou mesmo a prestar vestibular para Medicina antes de optar pelo Jornalismo: “Foi uma coisa do tipo ‘é agora ou agora’. E foi. Hoje eu vejo que seria muito infeliz vivendo num consultório médico”. – 

 

JORNAL1Évelin em uma pauta enquanto trabalhava para uma rádio gaúcha. Arquivo pessoal.

Mais que ler e escrever, é preciso conhecer

Na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde Thaís está terminando o quarto período, os estudantes passam por dois ciclos de estudo: o ciclo básico e o ciclo profissional. No ciclo básico a carga de leituras é bastante pesada porque as disciplinas são mais teóricas e não existem muitas atividades práticas nessa parte do curso.

 

A gente tem aula de Filosofia, Psicologia, Antropologia, tudo isso nos primeiros períodos; é muita coisa mesmo pra ler e tem que estudar. Tem que gostar de ler.”

 

Depois de terminado o ciclo básico, o estudante escolhe a área de habilitação que vai dar continuidade no curso: Publicidade, Jornalismo, Rádio e TV ou Produção Editorial. “No ciclo profissional ainda tem bastante leitura, mas a gente tem que produzir coisas mesmo, treinar e praticar a parte de jornalismo.”

O curso de jornalismo na UFRGS foi um grande choque de realidade para Évelin: “Quando entrei na faculdade, eu tinha como experiência a faculdade dos meus amigos. Todos falavam em turmas bem regradas e organizadas. Quando entrei na Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS), descobri que eu mesma tinha que montar minha grade, escolher as cadeiras eletivas, os horários. E isso foi a minha maior dificuldade no início. Acho que eu não tinha maturidade pra isso.” Em algumas disciplinas, onde a avaliação era mais rigorosa, Évelin teve que estudar bastante; em outras, mais práticas ou mais leve, não precisou mergulhar tanto nos estudos, mas hoje se arrepende: “Hoje eu teria aproveitado muito mais essas cadeiras”.

Debater faz parte

O que Thaís mais curtiu na graduação até agora foram os debates em sala de aula: “Nós sempre temos muitas conversas sobre os teóricos que lemos nas disciplinas, debates, vamos mudando a nossa opinião conforme aprendemos as coisas na faculdade. A gente vai aprendendo tanta coisa e vai se tornando uma pessoa melhor com os debates nas aulas”.

O que ela não gostou muito é que eles trabalham poucos textos modernos nas disciplinas mais teóricas: “A maior parte do que a gente vê é de coisas escritas há 50, 60 anos atrás, autores que se tornaram muito importantes, mas nem tudo que eles falam funciona daquela forma ainda hoje em dia”. Já para a Évelin, o melhor da graduação foi a liberdade de pensamento. 

 

Na faculdade eu pude, pela primeira vez, conviver com todos os tipos de pessoas, com todos os pensamentos, com todas as aparências. Evoluí muito nos meus questionamentos sobre gênero, orientação sexual, sociedade e cultura. Meus melhores amigos eu conheci na faculdade”.

 

2Imagem registrada por Évelin durante a cobertura que realizou para uma rádio gaúcha das manifestações de junho de 2013 em Porto Alegre. Arquivo Pessoal.

O drama do mercado de trabalho

Já a falta de debate sobre o mercado de trabalho foi um ponto baixo para Évelin durante a graduação: “Acho que algumas coisas passaram em branco. Noções que só tive realmente no mercado de trabalho.”

Esse é um ponto importante a ser levado em conta na hora de decidir ou não pelo curso: “É muito difícil quando a gente resolve entrar nessa área; tem que estar preparado pra enfrentar dificuldades e saber que a gente não vai ficar rico”.

JORNAL2A paixão por escrever, saber as novidades sobre música, séries, cinema e tecnologia levou Thaís ao curso de Jornalismo. Arquivo Pessoal.

O lado positivo é que existem muitas áreas diferentes de atuação, como assessoria de imprensa, trabalhar em redação de jornais ou revistas, televisão, rádio e agências de notícias. O jornalismo digital tem aberto muitas vagas em blog e sites: “A gente está em um momento de transformação, eu acho; é um momento em que está diminuindo o jornalismo tradicional de jornal e revista, um mercado que está ficando cada vez menor, mas há, em compensação, a parte de jornalismo digital”. Para Évelin, o mercado de trabalho do jornalista vive, talvez, o pior momento dos últimos tempos:

 

As redações estão esvaziando: bons repórteres estão sendo demitidos por cortes justificados pela crise; as editorias estão enxugando; boas reportagens só sobrevivem no meio alternativo… É bem triste, na verdade. Mas eu tenho esperança que isso seja passageiro”.

 

3Évelin participou da cobertura das manifestações de junho de 2013 realizando transmissões ao vivo para uma rádio, em meio a bombas de gás lacrimogênio, polícia montada e corre-corre dos manifestantes. Arquivo pessoal.

Vale a pena sim!

Thaís garante que suas expectativas sobre o curso estão sendo alcançadas e o recomenda pra todo mundo que gosta de ler, escrever e estar bem informado: “Você pode realizar um sonho de infância igual eu, que queria ser jornalista desde criança e agora tô aqui. E acho que eu vou conseguir!”.

 

E complementa: você vai ter que estudar diversas áreas diferentes que talvez não goste tanto: rádio, TV, cinema, fotografia, jornalismo impresso, ciberjornalismo (e, dentro dessas áreas, você vai estudar Política, Economia, Cultura, Esporte, História…). – 

 

Para Évelin, suas expectativas pessoais foram superadas (e mudaram depois da formatura): “Eu nunca pensei em sair do Rio Grande do Sul, por exemplo. Hoje, me vejo em São Paulo e em qualquer lugar que for preciso. E são coisas que só o Jornalismo permite. A profissão te coloca nuns perrengues que te fazem crescer muito”.

Dicas, pra que te quero!

Veja as dicas que a Thaís e a Évelin têm pra quem pensa em cursar Jornalismo:

  • Esteja preparado para ler muita, muita coisa!
  • Pesquise as ementas das disciplinas no site da universidade em que você pretende se inscrever;
  • Saiba que você não vai fazer fortuna trabalhando como jornalista  ¯\_()_/¯
  • Você vai estudar várias áreas que talvez não tenha tanto interesse: desde Política e Cultura até Jornalismo Esportivo;
  • Converse com pessoas que estão estudando Jornalismo ou já concluíram o curso;
  • Esteja preparado para trabalhar em feriados, finais de semana e durante a madrugada: a notícia não tem hora para acontecer!
  • Aproveite a faculdade para crescer intelectual e culturalmente: isso faz muita diferença na qualidade do material produzido.

Curtiu conhecer mais sobre o Jornalismo? Conta pra gente o que você achou das dicas da Évelin e da Thaís 🙂