“Do alto destes monumentos, 40 séculos de história vos contemplam”. Esta célebre frase foi dita por ninguém menos que Napoleão Bonaparte em 1798, para encorajar seus soldados na batalha contra as forças dos mamelucos há apenas 15 quilômetros das pirâmides egípcias. O país estava sob a autoridade do sultão de Istambul e era dominado por uma casta militar, os mamelucos.

 

A batalha, que durou apenas duas horas, foi registrada por François-Louis-Joseph Watteau em uma pintura a óleo. Apesar da vitória de Napoleão na batalha, a expedição do Egito se tornou um fiasco militar. –

 

Conhecer a História é conhecer a jornada da humanidade e, através desse trejeto, compreender como o mundo chegou ao que é hoje. Seja para entender o conflito na Síria, as relações entre Estados Unidos e Rússia ou a própria dívida externa do Brasil, a História faz parte dessa caminhada. Conversamos com Roberta e Claudia, formadas em História, que vão te contar mais sobre esse curso tão importante  – e desvalorizado 🙁

HISTORIA1Batalha das Pirâmides. Óleo sobre tela. François-Louis-Joseph Watteau, 1798-1799.

Desde os primórdios

Roberta Martini tem 38 anos e é formada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atua como professora da Prefeitura Municipal de São José dos Campos. Ela conta que sua paixão pela História desabrochou quando teve aulas sobre o Antigo Egito na 2ª série e se fortaleceu no Ensino Médio:

 

Tive uma das melhores e mais críticas professoras da minha vida. Outro motivo foi minha loucura maior pelas Primeira e Segunda Guerras Mundiais. Precisava conhecê-las profundamente, tentando descobrir como aqueles absurdos foram possíveis”.

 

Claudia Porcellis Aristimunha se formou em Bacharelado e Licenciatura em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1990, foi professora universitária e hoje é diretora do Museu na UFRGS. Ela conta que seu pai trabalhava em uma rádio gaúcha e ela sempre gostou de ler reportagens sobre lugares e culturas diferentes. Por isso, prestou seu primeiro vestibular para Jornalismo. “Não passei, tomei pau em Matemática e na época eram 22 por vaga! No próximo, mais madura, entendi que o que eu queria era História.”

Muita leitura (e interpretação)

Roberta nos conta que o curso foi puxado: “A cada semana, no início do curso, tínhamos entre 20 e 40 páginas por disciplina para ler, chegando a 60 ou até 80 no final. Minha primeira ação ao sair da sala de aula era correr para a biblioteca em busca dos livros, já que tirar todas essas cópias do material todas as semanas era sinônimo de falência”.

Ela explica que muitas vezes não dava conta de ler tudo o que os professores pediam, porque costumava fazer entre 5 e 7 disciplinas todos os semestres pra conseguir terminar o curso em 4 anos.

 

Tivemos que ler! Ler muito!  – O que chegava a ser enfadonho muitas vezes. No final dos semestres eram noites viradas escrevendo trabalhos.”

 

HISTORIA2Roberta em sala de aula com seus alunos. Arquivo pessoal.

Claudia conta que ficou muito empolgada em estudar História Antiga e Antiguidade Clássica quando entrou no primeiro semestre no curso. “Andava com o meu caderno em mãos e quando estava com amigos começava a contar coisas do Egito, depois da Grécia… A chata da Antiguidade Oriental e Clássica! Logo em seguida descobri que esta é a parte que talvez eu menos goste. Passei a gostar muito de História da América e foi por onde continuei minha trajetória acadêmica.”

Ela afirma que não gostava das disciplinas de Pedagogia, que na época eram ministradas por professores que não tinham concurso específico para a área.

 

Eu gostava da convivência com os outros cursos e as atividades de extensão, bem como os meus interesses sendo ampliados à medida que eu cursava História.”

 

Com a nova paixão pela História da América, Claudia acabou fazendo mestrado em História Ibero-Americana, onde estudou sobre a Colômbia, e depois fez uma especialização em Museologia-Patrimônio Cultural.

Roberta garante que a parte interpretativa da História foi o ponto forte do curso para ela: “O que eu mais gostei na graduação, ao contrário das minhas expectativas, não foram os cursos de História Contemporânea, com todos os detalhes das Grandes Guerras, mas sim a percepção de que a História é criada e recriada constantemente, influenciada por quem a escreveu, o ponto de vista que usou para escrever, as fontes históricas utilizadas para interpretar os fatos e por quem a leu, afinal todos somos frutos do meio em que nascemos e fomos criados”.

 

A falta de jogo de cintura e arrogância de alguns professores foi uma das coisas que Roberta não curtiu durante a graduação. “Lembro que por isso quase não me formei”. – 

 

Ela conta o caso de uma professora que ofereceu uma disciplina especial sobre o Nazismo, um dos temas que Roberta curtia muito estudar. Os horários coincidiam com as aulas da licenciatura, mas a professora, mesmo tendo a grade de horários livre, se recusou terminantemente a trocar o horário da aula. “Foi muito triste”, recorda.

Mercado de trabalho: a sala de aula e além

Claudia não pensava em trabalhar como professora quando entrou no curso: “Minha ideia ingênua era trabalhar com pesquisa (no Brasil!!!!!). Mas com o tempo, vi que pesquisa todo o professor faz também. Aliás, é o que defendo até hoje e passei a acreditar que poderia ser professora”. Ela trabalhou por anos como professora de graduação antes de entrar para o Museu da UFRGS.  

HISTORIA4Claudia no Campus Central da UFRGS, sede do museu onde trabalha. Arquivo pessoal.

Ela garante que, apesar de existir uma abertura para a colocação do profissional da História em outras áreas, ainda não existe a aceitação e valorização deste conhecimento e prática, e a maioria dos formados acaba atuando em sala de aula.

 

Existem muitos historiadores indo para Museus, onde sempre estiveram e devem estar! Outros trabalhando em empresas de grande porte, na preservação da memória institucional. Mas é muito difícil que um gestor aceite a necessidade de procurar e remunerar dignamente um Historiador.”

 

Roberta conta que sempre teve vontade de trabalhar em arquivos ou museus, mas que não conseguiu correr atrás de cursos de extensão ou especialização que precisava fazer e essas expectativas deitaram por terra. “Isso me levou à sala de aula o que eu menos queria onde me encontrei e, apesar do salário, me sinto muito feliz.”

Ela acredita que houve uma melhora no mercado de trabalho nos últimos 15 anos, afirmando que o campo de atuação é vasto e não se restringe somente à sala de aula. Como historiador você pode trabalhar em: museus, arquivos, centros de cultura, consultorias para empresas privadas e órgãos públicos, além de cinema, teatro e televisão, conservação de patrimônio e editoras.

HISTORIA3Claudia (primeira à esquerda) com colegas do MUF RJ (Museu de Favela do Rio de Janeiro). Arquivo pessoal.

Faça parte dessa História!

Roberta recomenda o curso, mas alerta que o estudante precisa estar ciente da carga de leitura e da necessidade de especialização do campo do Historiador. Além disso, dá a dica:

 

Se você quer cursar História e não quer de jeito nenhum dar aula, é melhor repensar as opções de vestibular. – 

 

“Não quero com isso desdenhar a sala de aula. Estou em sala de aula e é uma das experiências mais maravilhosas da minha vida. Mas é cansativo e, dependendo da rede em que se trabalhar, o salário é pequeno mesmo.”

Claudia também recomenda o curso, independente do mercado de trabalho, e garante “o curso de História te dá uma abertura para o entendimento dos processos históricos pelos quais passamos e nos ajuda a ir fundo no que está sendo dito ou feito”. Por isso, “Historiador na cultura é urgente e necessário!”.

Dicas, pra que te quero!

Se liga nas dicas da Claudia e da Roberta se você pensa em velejar pelas ondas da História:

  • História não é decoreba: é necessário estudar conjunturas e saber associar eventos e momentos politicos, econômicos e sociais, ou seja, entender processos;
  • Leitura e interpretação vão ser parte fundamental de sua rotina de estudos;
  • Esteja atento ao que está acontecendo no mundo;
  • Não dependa somente dos veículos jornalísticos tradicionais para se informar, busque fontes alternativas;
  • Procure entender o ponto de vista(de) que(m) está retratando os acontecimentos.

Esperamos que as dicas tenham te ajudado. Não deixe de nos contar a sua opinião nos comentários! A Série Profissões continua, fique ligado(a)! 😉