A Série Profissões continua aqui, firme e forte, pra te dar uma mão nessa louca aventura que é decidir o curso de graduação. Falando especificamente da área das Ciências da Saúde, existem diferentes graduações e pode ser confuso escolher um curso: será que faço Medicina, Enfermagem, Nutrição, Psicologia? São várias opções com ênfases diferentes.

Pra te ajudar nessa decisão, conversamos com Tiago Claro Meurer, que tem 29 anos e é Enfermeiro Assistencial de Emergência do Hospital Moinhos de Vento e Preceptor do Curso de Enfermagem da Uniritter, e com Morgana Salvadori, de 24 anos, estudante do 9º semestre de Enfermagem da Univates. Eles dividiram com a gente a experiência com o curso.

A escolha

Tiago, formado em 2010 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), nos contou que já sentia uma inclinação para a área desde a infância. Sua avó materna era auxiliar de enfermagem e ele lembra com carinho de ter contato com luvas, máscaras cirúrgicas e o “cheiro de hospital” quando a visitava. A perda do avô paterno foi um fator definidor. Tendo contato mais próximo com os profissionais da saúde, ele sentiu que “de certa maneira, aquelas pessoas, quando entravam no quarto hospitalar, traziam uma esperança, um alívio.”

 

Inicialmente, pensou em cursar Medicina, empolgado com a cultura popular de que é a melhor profissão do mundo – 

 

Sua mãe sugeriu que ele fizesse um curso de Técnico em Enfermagem, ainda no Ensino Médio, para ver como era a área da Saúde e definir melhor o curso para o qual prestaria vestibular. Depois de dois anos de muito estudo, Tiago concluiu o Técnico apaixonado pela profissão e com a certeza de que buscaria carreira em Enfermagem.

 

Já tive que ouvir de um professor da graduação que Enfermagem é profissão e não caridade. No entanto, acredito que, se tu entrares no curso sem teres o desejo de ajudar os demais, tu estás na profissão errada. O que é cuidar de outro ser humano, senão ajudá-lo no momento que ele mais precisa?”

 

Morgana era apaixonada por Psiquiatria, adorava assistir filmes e ler sobre o assunto. Durante o Ensino Médio, cursou Aprendizagem em Serviços Administrativos no Senac, onde teve uma disciplina de Enfermagem do Trabalho. Ela adorou as aulas e algumas conversas que teve com a professora a respeito da profissão fizeram com que cogitasse a Enfermagem como possível carreira. Ela nos contou que sua escolha pela profissão foi guiada muito mais pelo instinto do que pela razão e que sempre teve o desejo de ajudar as pessoas.

Conteudo3Morgana na disciplina de Semiotécnica realizando um teste de HGT. Arquivo pessoal.

O curso

Para Tiago, o curso técnico pode ajudar muito quem está em dúvida sobre o que estudar nas Ciências da Saúde, já que, segundo ele, existe uma dificuldade das pessoas em entender quem faz o quê: “Até onde o técnico pode ir? Até onde ele é treinado para ir? E o enfermeiro, faz o quê?? E o médico??? O Técnico foi muito esclarecedor neste sentido.” Ele garante que, para quem entra na graduação já tendo o curso técnico, o começo fica mais tranquilo: o estudante já sabe o que esperar do ambiente hospitalar e consegue relacionar melhor a teoria e a prática por já ter conhecimentos prévios.

 

Tiago garante que o curso fica mais convidadito após os semestres iniciais – 

 

Assim como o curso de Medicina (você pode ler mais aqui), a faculdade de Enfermagem tem suas matérias mais teóricas no início da graduação. Como são muitas disciplinas desse tipo, Tiago acha que “com muitas informações e talvez pela imaturidade do aluno, isso assuste um pouco, faça com que ele se sinta obrigado a “DECORAR”. E aí pode estar o grande dificultador, ele precisa ENTENDER.” É um conhecimento que o estudante vai precisar utilizar durante toda a faculdade e em toda sua trajetória profissional. Porém, após os semestres iniciais, Tiago garante que o curso fica mais convidativo, especialmente com a aproximação dos estágios, já que o estudante passa a ter um objeto mais palpável de estudo: o paciente.

A parte preferida do curso, para o Tiago, foi ter contato constante com pessoas e a aproximação com as relações humanas. “O estudante de Enfermagem, sobretudo, tem que gostar de gente. Gente, gente o tempo todo. Porque quando não é o paciente, é a equipe profissional. Ele precisa, é praticamente obrigado, a se relacionar – e quanto mais, melhor – com toda essa gente em volta dele.”

 

A parte mais difícil foi lidar com sentimentos de perda, dor e angústia – 

 

Ele acredita que há pouca preparação para isso durante o curso e que o estudante pode se sentir frustrado ao se deparar com essas emoções.

Morgana não sabia o que esperar quando começou a graduação, pois foi em um período de transformação pessoal: seu pai passou por uma grave doença em 2013 e ser estudante de Enfermagem e familiar de paciente ao mesmo tempo foi muito difícil; ela pensou em desistir do curso.
A experiência, porém, proporcionou um enorme amadurecimento: ela persistiu e, no final de 2016, vai se graduar. Ela enfatiza que sempre há espaço para aprimoramento no curso e que não há nada nele que não tenha gostado. Garante também que se sente plenamente realizada com a escolha profissional:

 

A cada atenção que dou a quem precisa, a cada orientação de como melhorar a sua qualidade de vida, eu me sinto realizada, pois acredito mesmo que posso fazer a diferença na vida de uma pessoa algum dia.”

 

Conteudo4Na esquerda, Morgana em seu estágio no centro obstétrico e, na direita, com o “pijama” do estágio em centro cirúrgico. Arquivo pessoal. 

E o mercado de trabalho?

Tiago acredita que a grande maioria dos profissionais formados em Enfermagem encontra seu espaço no mercado de trabalho. Quem não se dedica e não estuda, porém, vai encontrar dificuldade em arranjar trabalho. “O mercado definitivamente procura um enfermeiro que tenha visão de negócio, saiba ser gestor e conheça o seu paciente. Taí um dos principais equívocos do estudante, ele acha que o melhor enfermeiro é aquele que saberá executar melhor a técnica. E não é!” Segundo ele, os grandes causadores de demissão são problemas de postura profissional (visão de negócio, gestão, relação com os pacientes), mais do que problemas de técnica.

Ele recomenda o curso, especialmente por sua vasta gama de atuação: desde o atendimento em postos de saúde e casos menos urgentes até traumas gravíssimos, com o que atuam os enfermeiros da SAMU, por exemplo.

 

Também é possível optar por vagas administrativas, como auditoria de contas hospitalares, gestão ou qualidade hospitalar – 

 

Morgana também recomenda o curso, mas abre uma ressalva: “Essa história de ‘profissão para o resto da vida’, como eu pensava antes de prestar vestibular, não existe. Somos seres mutáveis e sempre há tempo de mudar de área ou até mesmo de linha dentro da mesma profissão.”

Para Tiago, a grande lição foi aprender que, para a maioria esmagadora das funções que o enfermeiro desempenha, é necessário entender sobre liderança e ter capacidade de gerenciar conflitos.

 

A pressão e os conflitos são rotina. Se não aprendermos a lidar com bom tom de liderança e postura profissional, poderemos nos desiludir. É preciso muito jogo de cintura.”

 

Sobre essa necessidade, Morgana leva para a vida profissional a experiência que teve com a doença do pai: “cuide de outro ser humano como se ele fosse seu pai ou sua mãe, pois com certeza ele é o pai ou a mãe de alguém” – algo que nenhum livro é capaz de ensinar, ela garante.

Morgana na disciplina de Bioquímica. Arquivo pessoal.

Sobre esse cuidado, Tiago fez um relato muito emocionante, nos mostrando a importância do papel do enfermeiro para o bem-estar dos pacientes. A gente compartilha aqui com vocês:

“Esses tempos estava em estágio no Hospital Santa Rita com uma turma do então 6º semestre. Distribuí os pacientes e, para uma estudante que senti que teria maior maturidade para conduzir o caso, destinei-a para prestar cuidados a uma paciente em cuidados paliativos. Eu não sabia até então que ela estava em terminalidade (os conceitos ‘terminal’ e ‘paliativo’ são diferentes). A aluna pegou o material dela e pró-ativamente foi ao quarto para realizar a primeira abordagem, se apresentar, verificar sinais vitais, fazer exame físico. Cerca de 10 minutos depois ela voltou, notavelmente menos estimulada do que foi. Me disse: ‘Não deu para realizar muita coisa, porque ela estava dormindo e a filha solicitou que eu não intervisse muito, que não precisava verificar pressão nem nada, que não havia mais nada para fazer.’ E eu disse: ‘E tu acha que tu não tens nada para fazer?’ A aluna me respondeu: ‘Acho que não, ela está com a dor controlada, não está comendo, mas acho que não é momento de sugerir sonda para alimentação, já que ela está partindo.’ E eu insisti: ‘Será que não temos nada para fazer tornando esse momento menos ruim para a família?’ A estudante pensou: ‘A filha da paciente disse que a mãe estava com muita saudade da cachorrinha dela. Afinal, moravam só as duas, ela era a companheira da mãe.’ Foi aí que sugerimos à família que trouxessem a cachorrinha (após resolvermos algumas questões burocráticas do hospital para tal). Vinte minutos depois ela chegou. Saiu direto da caixinha de transporte para cima do leito da paciente. Cheirou, cheirou, cheirou, resmungava, gemia, cheirava. A filha da paciente e a estudante de enfermagem choravam. O cachorrinho se despediu e menos de 30 minutos depois foi constatado o óbito da paciente. Então até quando não há mais nada que possamos fazer, sempre é possível fazer alguma coisa. O enfermeiro, além de técnico, precisa ter esse olhar. Foi lindo.”

 

Depois desse relato incrível, vamos para as dicas? Fica ligado (a) nelas se você pensa em fazer um curso na área da Saúde!

Dicas, pra que te quero!

  • Começar com um curso de Técnico em Enfermagem pode te ajudar a definir melhor a área das Ciências da Saúde mais adequada para você;
  • Compreender bem a parte teórica do início do curso é fundamental para a vida profissional;
  • É preciso gostar e saber lidar com pessoas;
  • Liderança e gestão de pessoas são diferenciais na carreira;
  • O curso proporciona uma vasta gama de opções de trabalho que abarca diferentes perfis profissionais. Por isso, pesquise para saber onde você se encaixa melhor.

Esperamos que vocês tenham gostado de conhecer um pouco mais sobre o curso de Enfermagem pelo olhar do Tiago e da Morgana. Conta aí pra gente o que você achou 🙂 Até a próxima!