Assuntos da política brasileira estão dominando os noticiários e, volta e meia, a gente assiste aquelas análises de uns tais de cientistas políticos na TV. Vê aqueles institutos publicando pesquisas de satisfação dos eleitores e intenção de voto e se pergunta: quem faz aquilo e COMO?

 

É para responder algumas dessas perguntas que, nesse post da Série Profissões, falamos sobre o curso de Ciência Política. –

 

Para nos ajudar, conversamos com o Lucas Lima, de 22 anos, que está no final da graduação em Ciência Política na UFPE, e com o Carlos Artur Gallo, 31 anos, professor substituto no Departamento de Ciências Sociais da UFSM.

Entendendo o curso: graduação ou especialização?

Sabia que para seguir uma carreira na Ciência Política não precisa, necessariamente, fazer a graduação de Ciência Política?

Na verdade, a Ciência Política é uma área do conhecimento das Ciências Sociais, que estuda ainda a Sociologia e a Antropologia. Ao terminar a graduação, você pode se especializar em alguma dessas áreas, fazendo Mestrado e Doutorado, por exemplo.  

 

Só que, lá pelas tantas, o curso de Ciências Sociais não conseguia mais dar conta de questões muito particulares da Ciência Política, como metodologias, questões econômicas e relações internacionais. –

 

Foi aí que surgiu uma graduação só de Ciência Política – filha da pós que já existia nas Ciências Sociais. Como o curso ainda é novo no Brasil, não existe em muitas Universidades. Então, a maioria dos cientistas políticos formados por aqui são graduados em outros cursos, como Relações Internacionais, Economia, Direito e Ciências Sociais.  

Por caminhos diferentes

Com tantos caminhos para estudar Ciência Política, nossos entrevistados optaram por escolhas diferentes. O Carlos fez Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e Direito no Centro Universitário Ritter dos Reis, em Canoas. Depois, concluiu o Mestrado e o Doutorado em Ciência Política também na UFRGS.

Já o Lucas, que mora no Recife, escolheu cursar a graduação de Ciência Política mesmo. Ele deu sorte, pois o curso da Universidade Federal de Pernambuco é um dos poucos do país.

 

Eu estava na dúvida entre Ciências Econômicas, Sociais ou Ciência Política. Mas aí identifiquei na política muitos problemas e decidi me dedicar a essa área.”  

 

Para ajudar na escolha, Lucas deu uma olhada no currículo do curso, leu sobre a área em sites e fez pesquisas.

5Esse é o Lucas! Arquivo pessoal.

Já o Carlos se interessava pela Ciência Política antes mesmo de entrar na graduação de Ciências Sociais. Na adolescência, ele ficava atento a qualquer notícia sobre o tema, principalmente em época de eleições.

 

Acompanhando as campanhas eleitorais, por sinal, é que conheci a profissão ao ver cientistas políticos dando entrevistas na televisão.”

 

4Conheça o Carlos, pós-graduado em Ciência Política pela UFRGS. Arquivo pessoal.

Precisa gostar de política?

Segundo o Lucas, é interessante conhecer, gostar e estar por dentro do sistema político. Mas não é necessário ser o “louco” da política. “A gente estuda política partidária, é um dos focos do curso, mas essa não é a essência.”

2Lucas na formação do movimento Choice, um grupo de jovens que querem transformar o jeito de fazer negócios no Brasil. Arquivo pessoal.

O curso também é focado em entender as relações de poder, a burocracia, a economia, como as demandas e a pressão popular estimulam o Estado a responder de uma forma ou de outra, como o mercado consegue influenciar na política e por aí vai.  Para o Carlos, mais do que gostar de política, quem pretende estudá-la tem que estar disposto a verificar que nem tudo é o que parece.

 

Fazer ‘Ciência’ relacionada à política é diferente de emitir mera opinião sobre política.”

 

O curso e a pós-graduação são focados em duas bases: teoria e metodologia. Confere aqui a grade curricular do curso da UFPE! 🙂

Existe estágio na área?

Conseguir estagiar no curso de Ciência Política não é assim tão recorrente quanto em outros cursos. Mas existem sim oportunidades no setor privado e público.

 

–  Os estagiários podem ajudar a realizar pesquisas de opinião, por exemplo, trabalhar em agências estatais ou em organizações que implementam e avaliam políticas públicas. –

 

Na UFPE, o Lucas teve experiências bem legais. Primeiro, participou de uma empresa júnior, criada pelos alunos do curso para tentar aproximar o mercado de trabalho do que eles vinham estudando. O estudante também trabalhou em uma ONG de educação política, chamada Politiquê?.

1Lucas (na primeira fila, canto direito) participando do II Fórum Pernambucano de Política. Arquivo pessoal.

E, recentemente, Lucas teve a oportunidade de trabalhar na campanha eleitoral para prefeitos e vereadores, onde auxiliou na elaboração de estratégias para uma candidata de Recife.

 

Ajudamos a construir táticas de alcance de eleitor, plano de governo, de mandato, estudamos o perfil dos eleitores.”

 

Outro tipo de estágio são monitorias e iniciações científicas, que ocorrem dentro da própria Universidade.

Onde dá para trabalhar?

É bem comum as pessoas acharem que a única saída para um cientista político no Brasil é ficar na Academia, trabalhando como pesquisador e professor em alguma Universidade. O Carlos nos contou que isso acontece porque não existe a regulamentação da profissão por aqui, e também porque a formação universitária reforça a vocação de pesquisador. Segundo o Lucas, o mercado não é grande fora da Universidade, mas está melhorando.

 

Os órgãos governamentais estão começando a levar os profissionais, que antes só ficavam na Academia, para dentro dos governos.”

 

Não é raro encontrar Cientistas Políticos vinculados a institutos de pesquisa públicos e privados ou trabalhando como assessores de marketing, em campanhas eleitorais e como auxiliares de gabinete de políticos, lembra Carlos.

Depois da formatura, que acontece no próximo semestre, o Lucas pretende fazer Mestrado. Em seu TCC – o Trabalho de Conclusão de Curso – ele está estudando a regulação da mídia no Brasil e na América do Sul.

Entre a sala de aula e a pesquisa

Depois de concluir Mestrado e Doutorado em Ciência Política, Carlos se tornou professor da área. Desde abril de 2016, ele trabalha na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Além das aulas, o professor continua desenvolvendo o trabalho como pesquisador.

 

Apresento os estudos que organizo em eventos nacionais e internacionais, e, com algumas revisões, vou publicando em revistas acadêmicas ou livros.”

 

3Carlos autografando uma das coletâneas que publicou em 2014. Arquivo pessoal.

Dicas, pra que te quero!

Confira as dicas do Lucas e do Carlos para você que pensa em cursar Ciência Política:

  • Prepare-se para uma carga de leitura e estudo pesada;
  • É um curso que exige dedicação exclusiva, segundo os nossos entrevistados;
  • Esteja disposto a analisar a realidade política e observar os fatos além daquilo que está evidente;
  • Tenha em mente que a cada eleição, a cada novo dado, a cada nova pesquisa, você pode se surpreender e suas convicções podem mudar;
  • Saiba aproveitar o conhecimento que o curso oferece para entender melhor o mundo a sua volta e conseguir agir para mudar o que está errado!

Quer conhecer alguma graduação que ainda não está aqui na Série Profissões? Então comenta aqui no post o nome dela para a gente saber qual é! Até o próximo post! 😀