Você é fissurado por leitura, assim como o Sam, da Patrulha da Noite, ou como a sabichona de Hogwarts, Hermione? Seja ficção, romance ou aventura, os livros alimentam a alma, exercitam o cérebro e nos fazem viajar sem sair do lugar. “Então, será que eu me daria bem escolhendo Biblioteconomia?”

Nesse episódio da Série Profissões, a Elizabeth e a Stéfane explicam que esse curso vai muito além do gosto por livros. Bora descobrir?

Pais & Filhos

A bibliotecária carioca Elizabeth Lamia sempre quis ser jornalista de economia. Ela tentou duas vezes o vestibular pra Jornalismo sem sucesso, pois era muito concorrido. “Uma professora de redação do cursinho sugeriu que eu fizesse pra Biblioteconomia, pois tinha mais a ver com Jornalismo. Me disse pra pesquisar e olhar a grade curricular. Segui as orientações dela e fiquei apaixonada pelo curso! Passei em 5° lugar e hoje não consigo me imaginar como jornalista.

 

No dia da matrícula, meu pai disse: ‘você vai mesmo cursar isso? Então vai ter que fazer até o final!’”

 

Formada em 2008 pela UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina), em Florianópolis, Beth conta que sofreu pressão dos pais pela sua escolha, pois eles não consideravam Biblioteconomia um curso de renome. “Além da faculdade à tarde, continuei estudando em um cursinho pelas manhãs. Passei pra Economia na UFSC (eu queria ser jornalista da área econômica, então, fazia muito mais sentido ser economista do que jornalista, certo?), mas nunca terminei o curso, porque ficou muito puxado fazer duas faculdades ao mesmo tempo.”

BIBLIO1Beth ama viajar e tem como hobby registrar as bibliotecas que encontra pelo mundo. Na foto, a Biblioteca do Congresso, em Washington D.C. (EUA), considerada a maior do mundo em espaço e acervo. Arquivo pessoal.

Mesmo com 29 anos, ela diz que a cobrança dos pais continua até hoje. “Eles acham que posso ser muito mais que uma bibliotecária. Nossa geração é muito cobrada pelos pais. Eles geralmente nos acham as pessoas mais inteligentes e capazes do mundo; então, se não nos tornarmos presidente dos EUA com PHD em Engenharia Química, não temos um cargo à nossa altura.” Mas Beth faz um adendo: “é importante lembrar que os pais querem o seu bem, mas que são de uma geração diferente, com outra referência do que é ser uma pessoa realizada”.

 

Eu foco na minha felicidade e no que eu penso que é melhor pra mim, não no que meus pais ou qualquer outra pessoa pensa.”

 

Diversas possibilidades

Durante o curso, Beth curtia muito as disciplinas que tratavam de pessoas, administração, planejamento e literatura. “Na minha visão, esse é o papel do bibliotecário: tornar o acesso à informação mais fácil e leve, otimizar o tempo das pessoas que precisam de documentos e disseminar educação e cultura.” O curso também é repleto de matérias técnicas, como catalogação e representação descritiva (aqueles números que ficam na lombada dos livros e indicam o assunto, autor e título), além de gestão de tecnologias de informação, já que hoje muito acervo por aí é digital.

BIBLIO2Seguindo o library tour: Beth fazendo pose em uma antiga igreja que virou biblioteca na cidade de Maastricht, Holanda. Arquivo pessoal.

A também vocalista da banda de rock Velvet Lips aconselha que é bom ter uma ideia de onde você quer trabalhar futuramente: “Tenho colegas de turma que adoram catalogar e classificar e não gostam de ter contato com pessoas. Eu, por outro lado, adoro atender pessoas, contar histórias, planejar. Outros gostam muito de resolver problemas internos das bibliotecas, dos sistemas, solução de inteligência. Então, acho que a Biblioteconomia oferece diversas possibilidades”.

 

Não conheço bibliotecários desempregados e todos trabalham na área.”

 

Hoje, Beth é concursada estadual na Biblioteca Ambiental de Santa Catarina, com uma boa remuneração, o que permite bancar as viagens que tanto gosta. “Não tenho colegas desempregados. Todos os 35 formados são bibliotecários em diversas instituições em SC, SP e RS, e vários de nós fomos contratados pelas empresas nas quais estagiamos. Em Biblioteconomia experiência é algo muito importante. Você tem que estudar, estagiar, fazer cursos oferecidos pela universidade, aprender novos idiomas e montar um currículo legal.”

BIBLIO3Beth (2ª da dir. para esq.) destaca a importância do bom relacionamento com colegas e professores. Arquivo pessoal.

Porém, nem tudo são flores. “Os melhores salários estão na carreira pública, mas você fica à mercê das vontades de superiores que, geralmente, veem a biblioteca com descaso. Infelizmente, cultura e educação não são prioridades no nosso país; portanto, esteja preparado para ter ideias maravilhosas pra melhorar a cultura organizacional da empresa, ou apenas para atrair mais leitores para sua biblioteca pública, e seu superior negar o projeto, alegando que não tem verba.”

E o que a Biblioteconomia trouxe de melhor pra vida da Beth? “A incansável vontade de mudar o mundo. Cada pequeno passo que vejo um estudante, leitor ou profissional dar em sua vida cultural, cada sorriso, cada discussão, me faz ter a certeza de que estou na profissão certa”.

Na batalha

Nascida em Torres, litoral do Rio Grande do Sul, Stéfane Dalmagro deixou a praia para cursar Biblioteconomia na capital gaúcha. “Eu achei muito legal a ideia de poder trabalhar em uma biblioteca e ainda ganhar razoavelmente bem. No início, não tive condições de prestar vestibular porque eu trabalhava e não tinha terminado o ensino médio. Não passei nos primeiros vestibulares, mas, com o apoio do meu namorado, no ano seguinte, consegui passar nos cinco que prestei.

Aos 24 anos, Stéfane está cursando o 6º semestre da UFRGS. “Minha mãe não queria que eu fizesse faculdade, pelo medo que ela tem de Porto Alegre. Meu pai ficou feliz, mas nunca deu muito apoio (financeiro).” A gaúcha, que gostaria de ser bibliotecária universitária quando se formar, hoje é estagiária na biblioteca do colégio Farroupilha, um dos mais tradicionais do estado.

BIBLIO4Stéfane (na esquerda, de listrado) e sua equipe, durante a 31ª Feira do Livro do Colégio Farroupilha, em julho deste ano. Arquivo pessoal.

 

A melhor parte da faculdade é o estágio, porque é quando você vê como a coisa realmente funciona, e não só aquilo que é visto em aula.”

 

Assim como a Beth, a Stéfane chama atenção para a grade curricular. “Infelizmente, o curso não trata sobre literatura, leitura e inclusão social, como muitos pensam. Ele é muito mais técnico, mas é exatamente o que eu esperava que fosse. O currículo varia muito conforme a universidade, então, sugiro que a pessoa pesquise e converse com veteranos. Sei que a UDESC e a UFSC, por exemplo, oferecem um curso mais ‘humano’.”

 

Não me imagino em outra área, e estar chegando perto do final, para poder atuar, me deixa muito animada!”

 

Onde vou trabalhar?

Se escolher a Biblioteconomia, você poderá atuar com:

  • Classificação e arquivo de livros, documentos, filmes e fotos em bibliotecas e museus;
  • Gestão e organização de informações em centros culturais e jornais;
  • Ensino, em universidades e cursos técnicos;
  • Sistemas de informação, organizando o banco de dados em empresas;
  • Serviço público, em bibliotecas municipais, estaduais ou federais.

Dicas, pra que te quero!

Confere as dicas das nossas entrevistadas se você optar pela Biblioteconomia:

  • Analise as grades curriculares, pois existem diversos currículos em diferentes faculdades. Assim fica mais fácil encontrar o que mais se enquadra no seu perfil;
  • Não se desespere! Se você não teve condições de cursar a faculdade onde gostaria, existem vários mestrados e especializações diferentes para depois que você se formar;
  • Participe de congressos, festas da universidade e dos centros acadêmicos: pode parecer tudo festa e “zuera”, mas um dia todos serão profissionais no mercado, e formar uma rede de contatos é absolutamente importante;
  • Tenha um bom relacionamento com professores e colegas. Não precisa ser puxa-saco, basta ser educado e cordial. Um dia, essas pessoas podem lembrar de você e te indicar para um estágio, bolsa ou mesmo um emprego;
  • Faça estágios em bibliotecas ou centros de documentação: você pode aprender muita coisa e ainda acabar sendo contratado quando se formar.

E aí, a Biblioteconomia é como você pensava? Gostar de ler é importante, mas o contato com pessoas e a gestão da informação também. Comenta o que você achou! No próximo episódio, aguarde por mais histórias sobre a saga da escolha profissional. Até mais. 🙂