Se você não se conforma com o que está errado e é capaz de perceber quando outro ~~serumaninho~~ está passando por problemas, talvez deva considerar Serviço Social entre as opções de graduação. A gente sabe que essa é uma daquelas profissões lado B que ninguém nunca entende direito. Por isso, na Série Profissões, fomos conversar com quem se formou e pode nos ajudar a entender melhor.

A Marília Scherer, de 23 anos e moradora de Balneário Camboriú (SC), fez o curso na Universidade Federal de Santa Maria. Já a Elisa Teruszkin Prestes, de 26, mora no Rio e cursou Serviço Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Quer saber a real sobre a faculdade e o mercado de trabalho? Confere aí:

Escolhendo certo por linhas tortas

Diferente de Veterinária, Direito ou Medicina, é bem difícil ver uma criança dizer que quer fazer Serviço Social desde pequena. Com a Marília e a Elisa, a escolha foi em cima da hora.

A decisão da Marília veio em 2011, quando, com um empurrãozinho da mãe, ela decidiu mudar de Santo Ângelo, sua cidade natal, no interior do Rio Grande do Sul, para Santa Maria para estudar. O problema é que ela não fazia ideia do que cursar: “Eu sabia que ia ter que me virar sozinha lá. Eu teria que trabalhar para me sustentar, então precisava escolher um curso com horário compatível”.

Foi assim, olhando as opções de cursos noturnos na Universidade Federal de Santa Maria, que encontrou o Serviço Social. Como não conhecia ninguém da profissão, conversou com a tia, que era psiquiatra e trabalhava com assistentes sociais.

 

Cada pessoa tem a sua maneira de fazer escolhas. Eu sou muito prática, gosto de elencar os prós e contras dentro da minha realidade.”

 

A Elisa descobriu a profissão em Israel, onde ficou durante um ano vivenciando a cultura de um movimento de jovens judeus de esquerda. Lá, ela conheceu um monitor que era assistente social. A sintonia com o trabalho que o colega realizava a hipnotizou. “Ele trabalhava com educação. Desenvolvia temáticas do conflito entre Israel e Palestina com jovens. Eu gostei muito dele. Ficamos muito próximos”. Quando voltou, optou assim como a Marília, pelo Serviço Social.

 

Mas o que as duas sabiam do curso? Quase nada. –

 

Teoria, pra que te quero?

As meninas ficaram bastante perdidas quando colocaram o pé na Faculdade. A Marília entrou na segunda turma de Serviço Social da UFSM e se assustou quando viu a quantidade de disciplinas teóricas:

 

Fiquei sem entender o que tinha a ver, o que realmente era o objeto de estudo da profissão, o que fazia um assistente social.”

 

Mas depois acabou descobrindo que a confusão é normal. “Tive que esperar e dar chance para o curso realmente se apresentar. Só então me apaixonei”.

SERVIÇOSOCIAL1Marília (no centro, de camiseta listrada) acompanha a aula inaugural do primeiro semestre. Arquivo pessoal.

A Elisa levou um choque quando os professores começaram a mostrar o que realmente era a profissão. “Todo mundo tem aquela ideia de que a assistente social é aquela moça boazinha, que gosta de ajudar. Quando a gente chega lá, descobre que não é nada disso”, lembra.

Para não ser pego de surpresa, fique preparado (a) para disciplinas, como Economia, Ciência Política, Sociologia, Antropologia, Questão Social, Ética Profissional, Gerontologia, Políticas Públicas e Sociais, Violência, Etnicidade e Exclusão Social, Responsabilidade Social e Ambiental, Direitos Humanos e Cidadania, e por aí vai.

– Quanto às aulas, são movidas a muitos seminários e debates com temas polêmicos e denúncias. –

 

Segundo a Elisa, a formação que você recebe na graduação trabalha com muitos teóricos de esquerda – então você precisa estar aberto para isso.

SERVIÇOSOCIAL2Elisa (à direita) participando do Seminário Nacional de Serviço Social e Diversidade Trans. Arquivo pessoal.

Nossas entrevistadas também tiveram uma impressão muito parecida durante a Faculdade. Além do aprendizado, o curso de Serviço Social trouxe para elas uma mudança interna na maneira de pensar e entender o mundo.

Outra curiosidade é que o Serviço Social não costuma ter apenas alunos elitizados e de maioria branca. Segundo a Elisa, os colegas dela na UFRJ eram, em sua maioria, mulheres negras.

Tem emprego?

A Elisa costuma dizer que a assistente social trabalha com o que ninguém quer trabalhar: direitos da mulher, da classe trabalhadora, dos pobres, da pessoa com deficiência, de crianças e adolescentes, de LGBTs, do povo negro, de indígenas e da pessoa idosa.

 

E é no estágio obrigatório que os alunos vivem as experiências da profissão na pele. –

 

“É ele que permite nossa aproximação com a prática da profissão”, conta Marília, que fez estágio em uma escola e em uma instituição de saúde. Já a Elisa estagiou em um hospital, onde acompanhava pessoas soropositivas que estavam em tratamento, e na Defensoria Pública da União.

SERVIÇOSOCIAL3A gaúcha (com blusa cinza) no Encontro Regional de Estudantes de Serviço Social. Arquivo pessoal.

Apesar dos ótimos estágios, as duas não saíram da formatura empregadas; 80% dos profissionais de Serviço Social são servidores públicos admitidos por concurso. A Marília, que se formou em janeiro de 2016, está estudando para isso; já a Elisa, foi fazer residência no Hospital Universitário Pedro Ernesto, uma espécie de especialização. Os concursos, a carreira acadêmica e as residências acabam sendo a escolha da maioria dos profissionais de Serviço Social.

Lá, durante dois anos, trabalhou em um programa para atender pessoas trans que eram candidatas a fazer a cirurgia de troca de sexo.

Me apaixonei por esse trabalho.”

 

Em janeiro de 2016, ela ingressou no Mestrado na Universidade Federal Fluminense (UFF). 

SERVIÇOSOCIAL4Elisa (no centro, de vestido) com as colegas da Residência. Arquivo pessoal.

Mas, afinal de contas, o que faz um(a) assistente social?

Elencamos algumas atividades clássicas de assistentes sociais com a ajuda das entrevistadas. Dá uma olhadinha na lista:

  • Analisa, elabora, coordena e executa planos, programas e projetos para viabilizar os direitos da população e seu acesso às políticas sociais;
  • Elabora laudos, pareceres e estudos sociais;
  • Realiza avaliações, analisa documentos, estudos técnicos e socioeconômicos, coleta de dados, pesquisas, visitas domiciliares e relatórios;
  • Pode planejar, organizar e administrar os programas e benefícios sociais fornecidos pelo governo, como o Bolsa Família;
  • Assessora órgãos públicos, privados, ONGs e movimentos sociais;
  • Pode dar aulas de Serviço Social em faculdades ou universidades.

Dicas, pra que te quero!

A Marília e a Elisa têm dicas preciosas pra quem está escolhendo um curso! Confere:

  • Escolha algo que você realmente goste de fazer, porque aquela máxima ainda vale: “A gente não vive do trabalho, a gente vive o trabalho”. Pode ser que você não se torne um milionário, mas você consegue se imaginar trabalhando todos os dias, pelo resto da vida, em algo que não goste?
  • Converse com profissionais que já estão atuando há algum tempo na área que você escolheu;
  • Procure não idealizar tanto a profissão;
  • Se escolher Serviço Social, prepare-se para trabalhar com populações vulneráveis e desigualdades sociais;
  • Desmistifique seus preconceitos! Em Serviço Social você vai trabalhar com mulheres, trabalhadores, pessoas com deficiência, LGBTs, negros, indígenas e idosos;
  • O cotidiano do assistente social está cheio de pessoas de profissões diferentes, como psicólogos, pedagogos, enfermeiros, advogados e médicos. Junte-se a eles para melhorar ainda mais o atendimento!

E aí, curtiu conhecer um pouco da história de quem cursou Serviço Social? Agora não vale mais dizer que não sabe nada sobre essa profissão. Até o próximo post! 🙂