Já pensou em morar e trabalhar em outro país, mas tem medo de fazer uma mudança tão drástica? O intercâmbio pode ser um ótimo meio de conhecer um lugar antes de fixar sua vida longe da terra natal! Foi o que aconteceu com a Sonia Guazina, relações públicas de 28 anos, na Argentina! Quer conhecer essa história? Então, partiu!

Era início de 2013. A Sonia, gaúcha de Santa Maria, estava com 23 anos e no último semestre da faculdade de Relações Públicas, já nos preparativos para a formatura. O sonho de fazer um intercâmbio para a Espanha, que ela alimentou durante todo o curso, estava em stand by. 

 

Chegou a ser aprovada para estudar em Valencia, mas, de origem humilde, a família não tinha condições de bancar uma viagem para outro país. “Não tinha la plata”, ela brinca. – 

 

Nem o Ciências sem Fronteiras, programa do governo federal que fornecia bolsas de estudo para estudantes no exterior (suspenso desde 2015 – saiba mais sobre o novo foco do programa aqui), a ajudava: no início, contemplava apenas cursos da área de Tecnologia.

Foi quando a sorte bateu na porta de Sonia: saiu um edital dentro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) com bolsas para intercâmbio em comunicação, coisa que não acontecia há muito tempo.

Era uma iniciativa da Associação de Universidades do Grupo Montevidéo (AUGM), então a vaga era para a Argentina. E agora? Adiar a formatura?

 

A Sonia nem teve essa dúvida: “Quando saiu, eu disse: é essa! Essa é minha! No importa nada!”, conta. – 

 

1  Olha a Sonia, feliz da vida, descobrindo a Argentina durante o intercâmbio ☺ Arquivo pessoal.

“Então eu fui, preparei um projeto, um plano de estudos bem elaborado. Tinha que explicar muito na primeira parte da seletiva porque que eu decidi fazer esse intercâmbio. E também havia análise de currículo. Depois, a segunda etapa é a entrevista, e aí a universidade diz se aceita”. Sonia estava tão segura de que essa era a oportunidade de sua vida que ficou em primeiro lugar na seletiva da UFSM e pode escolher seu destino: Córdoba.

Portunhol? Aqui, não!

O espanhol da Sonia é bem afiado! Já, já você vai entender porque ela mistura as duas línguas quando fala. Mas será que essa fluência toda já existia em terras brasileiras? “Nada!”

 

A única coisa que eu sabia era “hola, que tal”, “por supuesto”, mas isso não foi um critério na seleção, porque  quando fizeram a entrevista comigo viram que eu tinha tanta vontade de ir, que era uma coisa que estava tão no fundo da minha alma, que isso não importou.” 

 

Sonia desembarcou na Argentina para um intercâmbio de quatro meses na Universidad Nacional de Córdoba. Além das cadeiras normais da faculdade, ela fez aulas de castellano, mas aprendeu mesmo a falar espanhol lendo “un montón” e falando com as pessoas.3Na chegada a Córdoba, foto com intercambistas do mundo todo que estudaram na Universidad Nacional. Arquivo pessoal.

E sabe aquele papo de que o Espanhol e o Português são idiomas muito parecidos, que é mais fácil entender o que os argentinos dizem? É melhor não contar com isso, porque você pode acabar pagando um micão, tipo esse da Sonia.

“Me pasó un ejemplo gracioso, digamos así. ‘Un pingado’ no Brasil quer dizer um café com leite. E na Argentina eles chamam de ‘cortado’. E eu cheguei uma vez na padaria e pedi para a menina: ‘dos medialunas e un pingado’. E ela se quedó vermelha. E eu: mas o que é que eu tô falando errado? E as duas atendentes começaram a rir. Aí um dia no trabalho, de manhã cedo, eu pedi de novo um pingado. E meus colegas: ‘mas já, essa hora? Te acalma’. E eu: mas eu só quero um café! Aí me disseram que um pingado, na realidade, se refere a pênis, homem bem dotado. Então, essas coisas podem acontecer”, conta Sonia, aos risos.

Brasil versus Argentina

A vida na Argentina é bem parecida, em alguns aspectos, com a do Brasil, segundo Sonia. O problema é que as semelhanças costumam ser nas coisas que o nosso país tem de pior: violência, desigualdade social e corrupção.

 

Em termos de economia, a gente ainda está melhor, porque já conseguiu sair dessa inflação galopante. Em algumas coisas eles sofrem mais e a gente sofre menos. E em outras eles sofrem menos, e a gente mais. Mas educação, corrupção, transporte público, violência, machismo, violência de gênero, é igual. Não tem diferença. É o mesmo nos dois lugares”, conta a brasileira.

 

Como a Sonia é gaúcha, não chegou a estranhar tanto a cultura do cordobês, que está acostumado a tomar mate e a comer churrasco. No entanto, até para ela algumas coisas foram esquisitas. “O brasileiro está acostumado a comer muitas frutas, a comer tan variado principalmente no almoço e na janta. E não é assim na Argentina. Por exemplo, eles comem muita farinha. Café da manhã é um café com leite, medialunas. E no almoço, una milanesa, que é o prato típico deles, com purê, com salada. E o brasileiro come arroz, feijão, carne, batata, salada, muita fruta, então isso foi um baque pra mim.”

 

Além disso, as refeições na Argentina não costumam ser tão quentes. – 

 

“É mais morno para frio. O arroz que eles fazem, por exemplo, é meio que uma salada. Não é um arroz quentinho como a gente come. Até o preparo do arroz é diferente: eles colocam água para ferver, depois colocam o arroz e depois coam o arroz, como se fosse uma massa. E comem frio. Colocam ervilha, um pouco de maionese e comem como se fosse uma salada.”

Lições da Sonia

Pode não parecer, mas descobrir esses detalhes da cultura local e conviver com os nativos é uma das coisas mais importantes a se fazer em um intercâmbio. Essa é uma das principais dicas que a Sonia dá. “Eu fiz duas matérias no semestre que cursei na Argentina. Acabou que isso foi uma coisa muito inteligente. As duas matérias eram apenas na segunda-feira, então eu tinha o resto da semana para estudar e me divertir.”

 

Então fica a dica: o intercâmbio também é isso, conhecer pessoas, valorizar a cultura, viajar; é isso, não tem que ficar só estudando. Quanto mais conhecer o lugar, melhor. A inteligência não vem só da educação e da escolaridade, mas também de saber lidar no cotidiano com as pessoas. E isso eu aprendi um montão.”

 

Sonia morou em uma pensão com 25 estudantes, vindos de vários lugares do mundo. Ela dividia o quarto com mais três chicas. “Isso também é bem complicado, uma pessoa que já é acostumada a ter sua casa viver em uma com 25 pessoas e dois banheiros. O quarto era um cubículo. Quando você vai cozinhar: duas cozinhas e duas geladeiras para 25 pessoas, sabe? Também é um exercício de tolerância, de saber lidar. Chega uma hora que você quer bater em todo mundo. Tem que fazer fila pra fazer xixi, imagina?”, relembra.

 

Ela também aprendeu a lidar melhor com suas próprias finanças e a controlar os gastos: planejar isso é muito importante se você vai para Argentina, já que a moeda lá é muito instável. – 

 

“Eu tinha o dinheiro reduzido, tinha que comer e também queria sair. Queria comprar roupa, queria viajar. Você aprende a manejar seu dinheiro, ainda mais em um país em que, por causa da inflação, você compra uma Coca-Cola em uma semana e ela vale uma coisa; na outra semana, já está valendo o dobro.”

Volver y seguir

Deu para ver que a Sonia sabe tanto sobre a Argentina que parece que vive lá, né? Pois é, porque ela mora mesmo! O intercâmbio foi tão importante para ela que hoje a casa e o trabalho dela são em Córdoba. O que era para ser um período de quatro meses já chega a quase três anos! E quer mais?

 

A Sonia – que chegou falando três frases em espanhol, lembra? – hoje trabalha como apresentadora de programas na televisão argentina! Entendeu agora por que ela mistura tanto os dois idiomas? – 

 

4Com toda a equipe do programa que ela participou durante o intercâmbio. Sonia está na fila de cima, é a segunda da esquerda para a direita. Arquivo pessoal.

A experiência começou ainda no intercâmbio, quando ela participou da seleção de uma editora de TV que procurava uma menina estrangeira para participar de um programa de variedades. Ela fez os testes, foi selecionada e acabou ficando em Córdoba até o fim de 2013 – já estava sem bolsa e pensão da universidade, mas tinha trabalho. Sonia voltou para o Brasil para se formar em Relações Públicas no início de 2014, e depois foi morar em Florianópolis com a mãe.

 

Mas ela sentia muita falta da vida que teve na Argentina, então decidiu retornar ao país vizinho, desta vez por conta própria. – 

 

Como já tinha a experiência na televisão, fez alguns contatos e entrevistas e conseguiu uma vaga para apresentar o “prognostico del tiempo”, ou seja, virou a “garota do tempo” em um canal. Isso a tornou “algo conocida” na cidade conta, modesta.

2Sonia durante gravação na televisão argentina. Divulgação.

Hoje Sonia atua em uma produtora de vídeos que presta serviços para vários canais de televisão. E ela pretende continuar na Argentina, lugar onde se encontrou: “Esse intercâmbio foi a melhor coisa que se pasó até o momento, foi o lugar em que eu me descobri como pessoa. Eu aprendi a ser muito mais lutadora na Argentina, por ver como vivem essas pessoas, que são acostumadas com o ‘se te dão na cara, se levantam e siguem’. O maior ensinamento que eu tive nesse país foi de lutar, de perseverar. Eu digo que sou uma brasileira-argentina bem adaptada, vivo aqui e me encanta!”

Dicas, pra que te quero!

A Sonia tem algumas dicas para quem planeja fazer intercâmbio na Argentina:

  • Não idealizar o intercâmbio. Não espere muita coisa, porque você pode se frustrar. Vá e aproveite tudo da forma mais positiva possível!;
  • Entender que o sistema de ensino lá é bem diferente. A Sonia, por exemplo, fez uma disciplina na qual havia 200 alunos na sala de aula!;
  • Chegar já desconstruindo estereótipos: muitos argentinos acham que todo brasileiro é feliz, sabe sambar e vive no calor. E o pior: que a mulher brasileira é “mais fácil”;
  • Compreender o argentino, em primeiro lugar: “eles são fantásticos, mas têm um humor peculiar deles”, diz Sonia;
  • Saber que sim, a rivalidade com o Brasil no futebol existe e é bem forte lá;
  • Não basear a Argentina pela imagem que se tem de Buenos Aires. “O porteño (morador da capital) tem isso de ser mais agrandado (cheio de si). Mas não significa que todos os argentinos são assim”;
  • Ter em mente que, por trás de tudo, segundo Sonia, está o amor deles pelo Brasil. “Eles são apaixonados pelo nosso país, pelas pessoas, pelas praias, pelo clima, pela comida, só que eles são amargos (como eles dizem no futebol), jamais vão admitir isso”, brinca Sonia.

Incrível a história da Sonia na Argentina, né? Deu vontade de ir pra lá também? Dá uma olhadinha nos relatos da nossa série sobre intercâmbios para descobrir qual é seu lugar no mundo! 😀