Seguindo com nossa série sobre Intercâmbios, partiu conhecer o Ricardo, que viveu essa experiência por três meses na Indonésia? Ele conta como conseguiu a oportunidade e quais foram os desafios, os medos e as descobertas do período que passou no Sudeste Asiático. Confere aí!

Oi, eu sou o Ricardo, tenho 21 anos, me formei na escola em 2011 e entrei em 2012 direto do colégio na faculdade de Administração”.

 

Essa foi a apresentação do Ricardo Pierozan, para mostrar logo de cara como foi o início dessa história e provar que sim, ele é tão normal quanto você que está lendo este post.

Aliás, pode ser que vocês tenham muito mais em comum. Quer ver? “Na verdade, eu não tinha bem certeza se era Administração que eu queria. Pra ser sincero, a escolha não foi muito minha. Era tipo: não sabia o que fazer, aí alguém da família foi lá: ‘ah, acho que tu é mais criativo, mais descolado, acho que tu iria bem na Publicidade e Propaganda’. Mas aí chegou outra pessoa: ‘hum, PP, descolado demais, quem sabe tu faz alguma coisa mais segura, mais garantida, como Administração?’” – “E eu fui nessa”, conta o gaúcho.

 

A família e um amigo, que estava viajando pelo Ciências sem Fronteiras, motivaram o intercâmbio – 

 

E lá foi o Ricardo cursar Administração na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). No começo ele achou bem tranquilo, mas foi vendo que não era bem o que ele gostava depois que os semestres foram passando. Durante dois anos, Ricardo foi empurrando a faculdade, trancando algumas cadeiras, acompanhando matérias em outros cursos para ver se “se encontrava”. Chegou até a se inscrever no vestibular para Psicologia. “E na hora de pagar o boleto eu perdi o prazo. Senti que me sabotei. Ali foi o momento mais difícil”, relembra. “Começou 2015 e eu estava perdido, sem nada. Não queria continuar onde eu estava, mas não sabia o que queria fazer, não fazia a mínima ideia, estava perdido total”. A solução naquele momento foi trancar a faculdade de Administração.

Ricardo na Universidade Andalas, em Padang, na Indonésia. “É a Universidade onde ‘meu irmão’ estudava e onde o escritório da Aiesec ficava localizado”. Arquivo pessoal.

Foi aí que a ideia de fazer um intercâmbio começou a ganhar forma. “Já tinha um amigo meu viajando pelo Ciências sem Fronteiras (programa do governo federal que fornece bolsas de estudo e pesquisa em universidades do exterior para estudantes brasileiros) na Alemanha. Num contexto diferente, mas ele me dizia: ‘bah, talvez viajar seja uma boa ideia’. Pessoas da minha família também já tinham me dito isso. Aí eu fui atrás da Aiesec, que tem o escritório dentro da Escola de Administração.”

Escolhendo seu lugar no mundo

Na Aiesec, ele descobriu que havia dois tipos de intercâmbio: o social e o profissional. “O profissional também envolvia a área educacional, para dar aulas de Inglês, e eu sempre tive muito esse interesse, sempre fui fascinado por educação, por ensinar e aprender, compartilhar conhecimento. Então se abriu uma possibilidade.”

Após conversar com o pessoal da Aiesec, Ricardo começou a procurar vagas pelo mundo. Havia opções na Rússia, no Egito, na Itália, em Portugal, na Indonésia, na Croácia, na Sérvia. “No fim das contas, recebi retorno de duas vagas: uma no Egito e outra na Indonésia”. O primeiro país que o respondeu foi a Indonésia, e a próxima etapa da seleção seria uma conversa por Skype com um integrante da Aiesec de lá, já no dia seguinte. O encontro foi ao meio-dia para ele, mas às 22h no horário da Indonésia. Ou seja: a primeira grande diferença já estava nas dez horas de intervalo de fuso.

 

Quando abriu a chamada, já veio o primeiro choque: era uma guria que tava usando o hijab, que é o lenço que tapa o cabelo das muçulmanas”, conta ele.

 

No início da conversa, Ricardo estava sério, até meio preocupado. “Não treinei muito, não ensaiei muito, então eu estava meio nervoso : ‘o que eu respondo? O que eu falo? Minhas maiores qualidades? Meus maiores defeitos?’ Tinha que ter alguma coisa na cabeça, e eu não tinha direito”.

Mas a menina do vídeo, a Rossy, que mais tarde se tornaria sua grande amiga, tratou de acalmá-lo. Disse que aquilo não era um processo seletivo, de caráter eliminatório, e que queria apenas conhecê-lo melhor. Que era para ele ser o mais aberto e sincero possível: “Ela me deixou muito tranquilo. Também foi bem legal pra mim, um momento de ser mais autêntico. Porque, afinal de contas, se eles dissessem não, era porque não era para ser, porque eu não me encaixaria no país ou na realidade.”

Curioso para saber se deu tudo certo? Pois bem, menos de uma semana após a conversa no Skype, Ricardo teve o retorno: ele havia sido aprovado para fazer o intercâmbio na Indonésia! “Começou a cair a ficha e eu fiquei ‘meu Deus, a vaga é daqui a menos de um mês!’ Aí foi uma loucura indo atrás das coisas pra poder deixar tudo certinho e viajar. Na última semana, já estava tranquilo. Organizei uma despedida e fui”, lembra.

A vaga para a qual ele foi selecionado tinha duração de seis semanas, mas Ricardo não queria retornar em um mês e meio, afinal, o Sudeste Asiático é muito longe para se voltar tão rápido.  Então ele pesquisou sobre os países próximos e programou outras viagens.

 

No final eu fiquei três meses e meio. Seis semanas no programa e seis semanas livres para mochilar”.

 

Próxima parada: Indonésia

O destino do Ricardo na Indonésia foi a cidade de Padang. Lembra que a missão era dar aulas de Inglês, certo? Então: ele estava muito nervoso, apesar de ser fluente no idioma, porque nunca tinha dado uma aula assim na vida. Seus alunos teriam entre 12 e 21 anos – alguns eram até mais velhos do que ele na época. Dá um certo medinho, não é?

“O professor, na escola onde eu estava, trabalhava em um meio termo: não era um ensino totalmente livre e solto – eles tinham um livro-texto, aula planejada, cronograma, o que era bom para mim, que nunca tinha tido experiência; e, ao mesmo tempo, não era totalmente fechado, quadrado. Tinha espaço para criar, eles até estimulavam para usar música, fazer brincadeiras, jogos, trazer debates”, conta.

Você deve estar se perguntando onde ele morou durante esse tempo na Indonésia, não? Ricardo ficou na casa de uma família de lá. O “irmão” dele, na época com 24 anos, também já tinha sido da Aiesec e o ajudou bastante. Junto com a Rossy, ele introduziu Ricardo na cultura indonésia ainda via Skype. Também foram eles que o buscaram no aeroporto.

Esta foto foi tirada em frente à escola de Inglês onde Ricardo deu aulas. Estão aí o dono da escola (Ari) e a mulher dele (de pé, 3º e 2ª da esquerda pra direita) e a turma de inglês mais avançado (todos universitários em torno de 20-22 anos). Arquivo pessoal.

A (nada mole) vida na Indonésia

E qual foi o primeiro grande choque cultural que ele teve logo que chegou? Para Ricardo, sem dúvida foi o azan, uma chamada para a reza dos muçulmanos que toca cinco vezes ao dia, em todas as mesquitas.

O país é 80% muçulmano, religião islâmica. Tem mesquitas em tudo que é lugar e cada uma com um alto falante no topo. Então, ao chamado, todos eles tocam simultaneamente. É muita mesquita, então não existe um lugar onde tu não ouça. Tu pode estar em casa, no trabalho, na rua, no meio do mato isolado, na praia; tu vai ouvir. Era um cara chamando em Árabe. E o primeiro toque, o das 5 da manhã, era o mais louco. Eu virei algumas noites, principalmente no início, por causa do fuso horário, e ia madrugada adentro direto, mesmo depois que eu já tinha me adaptado; então às vezes eu não tinha nem dormido ainda, estava na cama, escuro, deitado, daí começava o chamado. Eram duas mesquitas muito próximas, e umas três ou quatro um pouco mais distantes, então ficava meio que umas vozes ao longe, meio macabro, meio assustador”, relata.

 

Ricardo e alguns amigos em um restaurante de Padang. Arquivo pessoal.

Na hora das refeições, mais uma diferença: na Indonésia se come com a mão quase todo o tipo de comida. “A lógica é a seguinte: a minha mão eu sei que está limpa, sei por onde passou, não tenho problema de colocá-la na minha boca. Agora, um garfo, uma colher, quantas pessoas usaram? Por quantas bocas passou? Eu não sei dizer”, explica Ricardo.

 

Outra característica da cultura local é que a maioria dos banheiros não tem privada e nem chuveiro (sim, isso mesmo!) – 

 

“A privada é um buraco no chão, tu te agacha para fazer as necessidades, não tem assento”. E também, para completar, não tem pia. “Há um balde bem grande embaixo da torneira e um baldezinho menor com uma alça. Tu enche o grande e vai tirando dali a água para tomar banho, escovar os dentes e também para se limpar quando faz o número 2”.

Mas e o papel higiênico? “Não se usava papel higiênico. Apenas a água e a própria mão. E a mão esquerda, importante dizer, porque se come com a direita e se limpa com a esquerda”, conta Ricardo, explicando que essa parte geralmente é o que mais choca os ocidentais. “A explicação é a seguinte: quando tu vai lavar as mãos, lava com papel? E se limpar com o papel, será que vai ficar limpo mesmo? Não, né? Então, se as mãos tu não limpa com papel, que dirá numa região que tem muito mais sujeira e é muito mais delicado de limpar, não é?”.

A cidade onde Ricardo ficou também era muito quente, com sol de rachar. “Era como se fosse sempre o verão daqui, entre 25 e 30 graus, aquele calor meio abafado, e às vezes aquela chuva que refresca, às vezes a chuva que só aumenta a umidade, o bafo”, conta.

Mas, mesmo com tanto sol e praias paradisíacas, era difícil ver a população local se bronzeando nas areias. O motivo?

 

Lá também há preconceito com quem tem a pele mais escura. Quanto mais escura, maior a rejeição. Esteticamente falando, se bronzear não é legal; pelo contrário, quanto mais clara a pele, melhor. Então era um sol sinistro, uma praia sinistra, um dia lindo, e os restaurantes na beira da praia com um monte de cadeiras e ninguém no mar. Todo mundo tapado, de roupa. Um calorão e o pessoal de casaco, manga comprida e luvas. Usavam até cremes branqueadores de pele, inclusive os homens.”

 

Ricardo (de camiseta branca, bem na direita), um amigo alemão e um canadense chamaram a atenção de algumas crianças quando iam fazer uma viagem de barco até uma outra ilha. “Brincamos um pouco com eles e depois tiramos uma foto”, conta. Arquivo pessoal.

Ilustres estrangeiros

Por causa dessa cultura da pele branca ser bonita, os turistas sempre chamam muito a atenção na Indonésia. E os intercambistas também.

 

Tinha uma menina australiana, loira e de pele clara; eles ficavam apaixonados, porque ninguém lá é assim. Estrangeiro é estrela, o pessoal quer tirar foto, pede autógrafo”.

 

Aliás, se você acha que aqui no Brasil somos viciados em celular e redes sociais, o Ricardo avisa que na Indonésia essa febre é muito mais forte. “Se aqui as pessoas não interagem muito pessoalmente, passam mais tempo no celular, saiba que lá é assim o tempo todo. Praticamente todos os estabelecimentos comerciais tem WiFi liberada, então dificilmente você fica sem internet e sem bateria, porque em todo lugar tem tomada também. Está todo mundo sempre com o celular, sempre na internet, tirando selfie, fotos. Compartilha, posta, curte, é uma loucura”, conta ele.

 

Até o próprio Ricardo teve seu momento celebridade na Indonésia – 

 

Ele foi convidado a palestrar sobre negócios sociais num encontro que aconteceu por lá, junto com vários participantes de peso: professores, empresários. Foi anunciado como “palestrante internacional”. Ao final de sua fala, se formou uma fila para tirar selfies com ele. “É aquela coisa: tu fica parado e uma pessoa vem, pede para tirar foto, e aí já tem outro na fila para pedir. E foram dois, três, quatro, cinco minutos assim, uma sequência de gente tirando selfies.”

Despedida de Padang, no aeroporto com amigos Indonésios e Chino-Canadenses (Canadenses de família Chinesa!). Arquivo pessoal.

Qual é o teu negócio?

O tema da palestra do Ricardo, inclusive, foi quase uma previsão dos caminhos que ele trilharia na volta ao Brasil. “Foi meio que um workshop, que era para o pessoal pensar nos problemas locais e solucionar através de negócios sociais. No fim, me perguntaram: mas qual é o teu empreendimento, qual o teu negócio social? E eu respondia: é, na verdade eu não tenho, né?”.

Não tinha mesmo. Mas quer saber? Esse foi um dos grandes legados do intercâmbio do Ricardo.

 

Na volta a Porto Alegre, ele estava com mais dúvidas do que respostas – 

 

Com o tempo, começou a organizar as ideias. Trancou mais um semestre da Administração, mas voltou a se conectar com a vontade de empreender. “Foi então que, com alguns amigos, eu comecei uma startup que visa revolucionar a mobilidade urbana, tornar a cidade mais inteligente e sustentável através do compartilhamento de bicicletas, de pessoas para pessoas”, diz Ricardo.

“Depois de um tempo, eu queria voltar a estudar. Pensei em Relações Internacionais, em Ciências Sociais, Antropologia, várias coisas. Mas no fim eu decidi mesmo voltar para a Administração”. Só que, desta vez, Ricardo passou a ver o curso com outros olhos: “Agora eu sei que o curso não me limita, mas me abre portas. E também é um ambiente muito rico, não são só as aulas, mas os professores, os colegas. Eu estava com saudade.”

Ricardo e  parte da sua host family: a mãe, o pai e uma menina de 10 anos portadora de Síndrome de Down. Além deles, tinha mais um irmão de 24 anos. Arquivo pessoal.

E agora, como o Ricardo se apresenta? “Agora eu estou bem feliz, bem realizado”, diz o estudante de Administração e empreendedor.

Dicas, pra que te quero!

O Ricardo deixou algumas (poucas, mas preciosas) dicas para quem pensa em fazer intercâmbio:

  • Na dúvida, faça: “É mais fácil pedir perdão do que pedir permisssão”;
  • Não tenha medo; “e se estiver com medo, vai com medo mesmo. É meio clichê, mas na verdade é aquela coisa: a vida é tua e tu tem que tomar as decisões que são as melhores pra ti”, diz ele. E, para arrematar: “Segue a tua intuição. Ela vale mais que decisão racional.”

Gostou de acompanhar a experiência do Ricardo com o intercâmbio? Esperamos que tenha ajudado e inspirado você a pensar nessa possibilidade! Ficou com alguma dúvida? Pergunta pra gente! Até a próxima!