Massas, lasanhas, pizzas. Sempre que se fala em Itália, é da comida que a gente lembra, né? Mas a Beatriz Lima Vieira, de 23 anos, não foi para o país em formato de bota só para “mangiare bene”. A baiana embarcou num intercâmbio estudantil pelo Programa Ciências Sem Fronteiras. Passou um ano complementando os conhecimentos em Oceanografia na Universidade de Bolonha. O que ela encontrou em mares italianos? Confere aqui:

Arrivederci”, Brasil!

Baiana de Vitória da Conquista, Beatriz deixou sua cidade natal e foi estudar Oceanografia em Fortaleza, na Universidade Federal do Ceará. No quinto semestre do curso, em 2013, viu que muitos colegas agregavam conhecimentos na área fazendo intercâmbios. Foi assim que decidiu se inscrever no Ciência Sem Fronteiras, um programa de intercâmbio do Governo Federal em que o aluno recebe ajuda financeira para estudar fora do Brasil durante um ano.

 

Entre os países que eram opção para a graduação de Oceanografia, Beatriz escolheu a Itália. – 

 

Os motivos eram dois: acreditava que a extensa costa italiana era o destino ideal para a sua área e que o país tinha uma cultura parecida com a do brasileiro. Mas o desenrolar dos fatos mostrou que a realidade não era bem essa.

Entre Bolonha e Ravenna

Chegando em Bolonha (sim, essa cidade no Norte da Itália tem um nome que lembra aquele molho delicioso!), onde ficava a Universidade, Beatriz descobriu que o Departamento de Biologia Marinha, no qual estudaria, não ficava lá. Precisou se mudar para uma pequena cidade litorânea, chamada Ravenna, a cerca de uma hora e meia. O susto foi grande, afinal todos os amigos e conhecidos estavam em Bolonha e Ravenna era muito fria. “A parte boa é que o transporte era muito bom, então a gente (ela e outros três amigos que mudaram para a cidade) ia para Bolonha quando podia”.

6Essa é Ravenna, a cidadezinha onde a Beatriz morou. Arquivo pessoal.

Outra surpresa aconteceu ao perceber que os colegas de intercâmbio eram todos de áreas diferentes, como Biologia, Medicina Veterinária e Agronomia. Foi aí que o primeiro dos motivos para ter escolhido a Itália foi por água abaixo: a Oceanografia não era uma Graduação por lá.

 

Fiz aulas que correspondiam às minhas disciplinas no Brasil, mas, para eles, era uma espécie de especialização, como um Mestrado.”

 

Parla italiano con me

Quando soube que o seu destino seria mesmo a Itália, Beatriz respirou aliviada: “Italiano é bem parecido com o português”, lembra de ter falado muito tranquila. Quando desembarcou no aeroporto, ninguém a entendia e ela não entendia ninguém. Para piorar, os italianos não tem o costume de falar outras línguas, como o Inglês.

 

Eu tinha a sensação de estar ouvindo latim o tempo inteiro.”

 

Nos primeiros dois meses, fez um curso intensivo de Italiano. Antes do início das aulas, ela e os colegas brasileiros precisavam aprender o básico da língua para acompanhar a explicação dos professores.

5Intercâmbio também é cultura. Sabia que a história do Pinóquio é italiana? A Beatriz foi dar uma conferida! 🙂 Arquivo pessoal.

O curso, que é oferecido pelo próprio Ciência Sem Fronteiras, foi muito útil. “As provas eram orais e eu não tive dificuldade nenhuma em falar e entender depois do curso. Trabalhei até com educação ambiental de crianças e pescadores e eles me entendiam muito bem”.

Tartarugas no Mediterrâneo

Se as aulas de Oceanografia não eram bem o que a Beatriz esperava, os estágios não deixaram a desejar. Dentro da Universidade, trabalhou em um laboratório onde fazia o controle de qualidade ambiental da zona costeira de Ravenna. O projeto rendeu muita experiência e um artigo para o currículo de Beatriz.

 

Depois, viajou para a região da Calabria, no Sul, onde fez um trabalho de conservação de tartarugas marinhas no Mar Mediterrâneo. – 

 

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Keep Calm e salve as tartarugas marinhas!
Arquivo pessoal.

Beatriz já havia trabalhado com tartarugas no Brasil, participando do Projeto Tamar. Na Itália, atuava ajudando animais debilitados e machucados ou em projetos de educação ambiental para a comunidade local.

Gostou tanto, que a educação ambiental virou um tema de estudo. O trabalho de conclusão do curso de Oceanografia foi na área, onde ela espera agora iniciar o Mestrado.

1Olha a Beatriz em ação! Arquivo pessoal.

 

Ensinamentos

O estágio com as tartarugas tomou tanto tempo, que Beatriz não conseguiu viajar muito para outros países. Além de várias cidades na Itália, ela foi para a Alemanha, Marrocos e Suíça. Mas garante que valeu a pena.

2Beatriz em Genebra, na Suíça, um dos países que visitou durante o intercâmbio. Arquivo pessoal.

 

O intercâmbio mudou sua visão do Brasil

 

Eu vi que eu tinha uma base muito boa da Universidade e da escola brasileira. Passei a ver como o Brasil era bom e fiquei muito feliz.”

 

Apesar disso, percebeu que muitos italianos tinham uma visão colonialista, ou seja, ainda viam os brasileiros como “pessoas descobertas por Portugal”. Aprendeu sobre a cultura italiana e viu que não era muito parecida com a nossa. Viajava para a casa de amigos italianos em várias partes do país, onde tinha contato com os costumes e a culinária.

3Beatriz com algumas amigas que fez no intercâmbio. Arquivo pessoal.

Outros percalços pelo caminho a deixaram muito irritada: “a Itália é um país muito burocrático e desorganizado. Quando cheguei, por exemplo, ninguém do Departamento sabia que eu viria; ninguém sabia sequer o que era Ciência Sem Fronteiras. Fiquei apavorada”.

Sobre o dinheiro, a baiana disse que conseguiu viver bem com a bolsa que recebia do governo brasileiro. Os pais até chegaram a enviar uma grana enquanto ela estava lá, mas por iniciativa própria, não por necessidade.

Dicas, pra que te quero!

Pensou em fazer um intercâmbio como o da Beatriz? Então se liga nas dicas dela:

  • Valorize as amizades feitas no intercâmbio! Os amigos serão seu ponto de apoio nos momentos difíceis.
  • Esteja preparado para contratempos e aprenda com eles;
  • A Itália é um país bastante idoso. Se você quer vivenciar uma cultura mais jovem, procure outros destinos;
  • Veja o lado bom de não ter muitos brasileiros por perto: você vai exercitar mais o idioma estrangeiro e fazer amigos de todos os cantos do mundo;
  • Por sua riqueza histórica, o país pode ser uma boa pedida para quem faz Arquitetura, História e Artes.

E aí, curtiu? Se você tem alguma outra dúvida sobre intercâmbio para a Itália ou qualquer outro lugar do mundo escreve pra gente! Fiquem ligados no próximo post e “arrivederci”! 😉