Quase 10 horas de fuso horário e mais de 12 mil quilômetros de distância. Já imaginou ir pra tão longe? Pois Icaro Piacini, de 22 anos, alçou voo e foi estudar 11 meses em Melbourne, na Austrália, pelo Ciência Sem Fronteiras. Nesse post da Série Intercâmbios, conversamos com o gaúcho de Santa Clara do Sul, que nos contou sobre a experiência de viver e estudar do outro lado do mundo.

Olha que vídeo legal que o Icaro fez com as fotos e vídeos do intercâmbio! Youtube.

Icaro estuda Engenharia Química na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele nos conta que tinha muita vontade de estudar em uma universidade no exterior e usufruir dos recursos tecnológicos de uma instituição estrangeira. 

AUSTRALIA1TRUEIcaro conhecendo de pertinho cangurus, um dos animais símbolo da Austrália. Arquivo pessoal.

A escolha pela Austrália veio pela vontade de conhecer o país e, claro, por ser uma oportunidade única. Ele já sabia a cidade onde queria viver e a partir disso escolheu uma universidade que tinha parceria com o Ciência Sem Fronteiras: a Universidade de Melbourne. Além de ser avaliada como uma das melhores universidades do mundo, a cidade de Melbourne é conhecida por ser multicultural:

 

Tem gente de tudo o que é lugar do mundo e isso é muito legal”.

 

Icaro buscava a imersão na cultura do país Sydney, por exemplo, é um dos endereços de maior procura dos brasileiros então Melbourne foi a escolhida para conseguir se enturmar e praticar o Inglês conversando com locais ou intercambistas de outros países.

Antes de cruzar o Pacífico

A UFRGS exige alguns pré-requisitos ao selecionar os alunos para o programa de intercâmbio; entre eles, já ter uma boa parte do curso concluída e bom desempenho acadêmico. O semestre anterior ao intercâmbio foi muito difícil e Icaro garante que se dedicou muito aos estudos para não perder a chance de viajar. Além disso, fez a prova do IELTS (International English Language Testing System) para comprovar a proficiência em Língua Inglesa.

Para organizar a parte burocrática da viagem, afirma que a UFRGS ofereceu pouca ajuda. Ele mesmo foi atrás do edital do Ciência Sem Fronteiras (que, aliás, mudou suas regras. Saiba mais aqui) e agilizou a documentação: visto e passaporte. Já na Universidade de Melbourne que é privada a coisa foi bem diferente: “Lá eles tinham recursos pra tudo. Se tu estava te sentindo com saudade de casa, por exemplo, tinha uma psicóloga pra conversar contigo”.

Onde morar?

Icaro viajou em fevereiro de 2015 sem ter certeza de onde ia morar durante sua estadia no país. Ficou inicialmente em um hostel, dividindo o quarto com desconhecidos. Ele havia planejado se hospedar por uma semana enquanto procurava um apartamento para alugar. Porém, acabou ficando 10 dias até achar o lugar certo.

AUSTRALIA2TRUEA carga horária leve permitiu que Icaro viajasse pelo país. Arquivo pessoal.

 

Ele nos conta que visitou diversos lugares e que foi difícil de achar um apartamento adequado, com bom preço e que não estivesse em mal estado. –

 

A própria Universidade de Melbourne dá dicas aos estudantes do que procurar ao inspecionar um apartamento. A universidade possui dormitórios (que são pagos) para os estudantes, mas Icaro garante que eles são caríssimos e que alugar um apartamento foi a melhor opção. “Eu achei um apartamento de um quarto para duas pessoas, mas eu não tinha com quem dividir. Acabei conhecendo um brasileiro no hostel que também precisava de lugar para ficar e acabamos morando juntos e deu super certo. Ele estava mais ou menos no mesmo semestre que eu e também era da Engenharia Química.”

Apesar de ser mais barato que os dormitórios da universidade, o aluguel do apartamento era caro: 769 dólares australianos para cada um por mês (e na época cada dólar australiano custava 3 reais). O apartamento que eles alugaram ficava em uma “college square”, uma quadra com edifícios apenas para estudantes. Os prédios contavam com academia e piscina e ficavam há duas quadras da Universidade. Para oficializar o contrato de aluguel, bastava o comprovante de matrícula da universidade e o pagamento de uma caução, que é um depósito em dinheiro como garantia para o dono do imóvel caso o inquilino não pague o aluguel (esse valor pode ser resgatado depois).

Na faculdade, quanta diferença

Icaro nos explicou algumas diferenças entre o curso de Engenharia na UFRGS e na Universidade de Melbourne: “O sistema da universidade deles é bem diferente da gente. O nosso curso de Engenharia aqui dura 5 anos. Lá o curso é de 3 anos (undergraduation) e depois podem fazer mais 2 anos de especialização (masters). O nosso curso no Brasil é muito completo, o masters deles está incluído na nossa graduação.”

Ele achava que as disciplinas iam ser bem mais difíceis, acostumado com um alto nível de exigência tanto de conteúdo quanto de carga horária: “Eles podem fazer um máximo de 4 disciplinas por semestre, enquanto nós fazemos 7, às vezes 8”. Além disso, cada semestre dura apenas 12 semanas, o que permitiu que ele viajasse bastante. 

Diferentemente do que Icaro estava acostumado, ao invés de ter diversas provas durante o semestre, cada disciplina conta com apenas uma grande prova no final (finals), que valem cerca de 80% da nota. Pequenos trabalhos complementam os 20% restantes e não existe prova de recuperação.

AUSTRALIA3ABoas-vindas na Universidade de Melbourne, onde Icaro estudou. Arquivo pessoal.

As aulas funcionavam de duas maneiras: lecture (palestra) e tutorial (um estudante bem qualificado dá aulas separadamente). Todas as lectures eram gravadas e podiam ser assistidas em casa: “Tem uma cadeira que eu nem vi o professor. Se a primeira pergunta da prova fosse identificar o professor, eu ia errar! (risos)”.

 

Ele já saiu do Brasil sabendo que disciplinas queria cursar, mas descobriu lá que havia alguns conflitos de horários e teve que mudar os planos. –

 

Além disso, a matrícula não é feita pelo site da universidade. O estudante precisa escrever para o professor explicando que tem os pré-requisitos para cursar a disciplina e o professor pode ou não aceitar o pedido.

Icaro afirma que as pessoas foram muito receptivas: “Eles gostam de brasileiros, acham a gente carismáticos”. Nas disciplinas, conheceu muitos asiáticos e holandeses e estudou com poucos australianos. “Foi tranquilo fazer amizade. Eles gostam de fazer aquelas festas em casa e acaba juntando um monte de gente diferente, porque vai um convidando o outro.”

Foi voltando de uma dessas festas que pôde presenciar um exemplo da segurança do país:

 

Teve um dia que eu estava voltando pra casa de uma festa às 3 da manhã. Na Austrália os orelhões tem wi-fi também, então o pessoal acaba sentando do lado pra acessar a internet. Três da manhã e tinha uma menina sentada na rua, usando o MacBook dela, carregando o iPhone na tomada do orelhão, bem de boa sozinha ali”.

 

Ele garante que o idioma não foi um impedimento: “O problema é tu falar. Ler e escrever não é problema nenhum, mas até tu engrenar e começar a falar, demora um pouquinho”. Além disso, o carregado sotaque australiano dificultou um pouco até ele se habituar.

AUSTRLIA4TRUEO Sul da Ásia também fez parte do roteiro cultural. Arquivo Pessoal.

O clima também não causou estranhamento para Icaro: “Melbourne é no sul da Austrália, o clima é muito parecido com o do Rio Grande do Sul, mas ventava muito”. No verão, a praia era uma das opções de lazer depois das aulas. Icaro contou que com frequência eles pegavam um bondinho pela cidade, sem destino predeterminado, e que assim conheceram vários lugares interessantes.

AUSTRALIA3BBungee jump na Nova Zelândia. Arquivo pessoal.

Com a rotina mais leve de aulas, pôde viajar e conhecer quase toda a Austrália, Tasmânia, Nova Zelândia, Singapura, Malásia, Indonésia e Tailândia. Com o câmbio baixo das moedas, as viagens não pesaram no orçamento. Os intercambistas recebem a bolsa do Ciência Sem Fronteiras a cada três meses, o que pode dificultar o controle dos gastos:

 

Acabava que no final do terceiro mês tava todo mundo sem grana comendo pão com ovo (risos)”.

 

O auxílio do programa conta, além da despesa com as passagens, com auxílio para compra de material escolar, para instalação e seguro saúde. “Lá eles têm um programa chamado ‘doctor at home’. Tu liga e explica como tu está te sentido e o médico te atende na tua casa, traz os medicamentos e coisas que ele precisa, e esse atendimento é de graça.” Icaro chegou a precisar desse serviço:

 

Antes do Ano Novo, eu fui picado por uma aranha; passei muito, muito mal, e tive que chamar o médico. Era uma aranha muito pequena, mas eu fiquei com febre, foi horrível”.

 

“Funciona tipo um Uber. Eles contatam o médico mais próximo e ele se desloca pra tua casa, em menos de uma hora ele chega”, ele conta.

Icaro recomenda o intercâmbio: “Com certeza, é uma experiência única. Tu volta completamente diferente. Eu não queria voltar. Foi um dia muito triste quando tive que comprar minha passagem de volta”.

AUSTRALIA5As belas praias não podiam faltar no roteiro. Arquivo pessoal.

Dicas, pra que te quero!

Icaro nos conta o que ele acha importante você saber antes de fazer intercâmbio:

  • Não tenha vergonha de falar Inglês: “Se tu não tentar, tu não vai aprender”;
  • Não se apegue tanto aos brasileiros: aproveite para conhecer e se aprofundar nessa cultura nova (afinal, você pode conversar com brasileiros o tempo todo quando voltar);
  • Dê a cara a tapa: é incrível como você cresce com os desafios que encontra durante a viagem;
  • Não saia do Brasil com a moradia organizada, pois você pode entrar numa fria. Visite os lugares antes de fechar contrato.

Conhecendo a história do Icaro dá vontade de viajar para a Austrália também, não é? Você está pensando em fazer intercâmbio para algum país? Conta pra gente nos comentários 🙂 Até a próxima!