Não te faz, que a gente sabe que quando sobrava aquele tempinho nos estudos você assistia Caminho das Índias no Vale a Pena Ver de Novo. Brincadeirinha à parte, a Índia é retratada de um jeito bem caricato nas novelas e filmes, né? Um jeito que, nem sempre, mostra a realidade do país e de seus moradores. Então, para ajudar você a ver a Índia como ela é pelo olhar de um intercambista, conversamos com o porto-alegrense João Marcelo Couto Conceição, de 24 anos. O que ele nos contou? Confere aí:

A decisão

Em 2014, João tinha acabado de se formar em Administração quando bateu aquela dúvida clássica de recém-formado: “o que eu vou fazer agora?”. Decidiu aproveitar o momento enquanto ainda é jovem, não tem mulher, filhos e aluguel, como ele mesmo diz para colocar o pé na estrada. A ideia era fazer um intercâmbio profissional pela Aiesec, uma organização que oferece intercâmbios e trabalhos voluntários para jovens no mundo todo. Só faltava decidir o destino.

 

João sempre teve um carinho especial por países que, geralmente, não são os mais lembrados quando se pensa em viajar – 

 

E quando procurou a Aiesec, o pessoal sugeriu que fosse à Índia. “Opa! A Índia é um pouco diferente demais até pra mim!”, lembra de ter pensado quando recebeu a proposta. Mas o choque inicial passou e ele aceitou a ideia.

Feita a escolha, era hora de procurar um emprego. Ele contou pra gente que fez todos os tipos de entrevistas curtas, longas, para grandes empresas e até sem entender nada do inglês que o indiano falava no Skype. Sabia que precisava escolher bem a vaga. “Às vezes a empresa que te contratou pode falir ou não pagar o salário. Já aconteceu com conhecidos meus”. Até que um dia deu sorte! Achou o que queria.

No dia do embarque, João lembra de estar com muito medo. “Esperando em Guarulhos, eu tava quase chorando. Juro que se alguém me oferecesse uma passagem de volta para Porto Alegre, talvez eu aceitasse”. Mas como ninguém ofereceu, ele seguiu em frente.

Conteudo3Pra quem estava curioso, esse é o João!

O trabalho

Lembra que a gente disse que o João deu sorte com o trabalho? Pois é, o porto-alegrense conseguiu uma vaga de seis meses em uma empresa de jogos eletrônicos na internet, do tipo cassino, bingo, etc. Trabalhava na cidade de Hyderabad, que fica a mais de 1.500 km de distância de Nova Deli, capital do país.

 

A jornada de trabalho era só de cinco dias por semana (você pode até achar normal, mas, na Índia, são seis) – 

 

A empresa fez uma conta bancária pra ele e até um cartão de identificação indiano tudo bem certinho. Só uma coisa não o agradou: o trabalho era bem burocrático e não acrescentou quase nada profissionalmente. Mas, como João trabalhava na mesma sala de um colombiano e um ucraniano, ficou feliz pela experiência cultural.  

Durante esses primeiros seis meses em que trabalhou em Hyderabad, João aproveitava as folgas e finais de semana para conhecer cidades próximas. Morou em dois apartamentos. O primeiro era mais longe e mais sujo, mas as pessoas, segundo ele, eram mais legais. Morava com outros nove intercambistas vindos de países como Colômbia, Ucrânia, México, Costa do Marfim, Rússia e Espanha. No último mês, mudou-se para mais perto, onde dividia o espaço com uma galera da Namíbia, Rússia, México e Colômbia. Dá para conhecer gente de muitos lugares, né?

Conteudo6João comemorando o Natal com os colegas de trabalho em Hyderabad.

A cultura

Depois que o trabalho acabou, o João passou um mês mochilando pela Índia, um mês na Tailândia e mais dois meses e meio pelo Laos, Vietnã, Camboja, Indonésia e Malásia (nessa ordem). Não dá nem pra imaginar quanta história ele viveu nesses meses dava até para escrever um TCC. Algumas ele dividiu com a gente!

Conteudo7João no Parque Nacional Mu Ko Ang Thong, na Tailândia.

Sabe quando você está esperando há meses pelo filme novo do X-Men e no dia que vai ao cinema tem aquela pessoa que não cala a boca na sessão? Na Índia isso é bem comum. As pessoas conversam e acredite até entram e saem no meio do filme. São essas coisas pequenas, como ser revistado para entrar no mercado e ver vacas para todos os lados, que fazem da Índia um lugar com uma cultura muito diferente. João lembra que ficou chocado com o trânsito: “É uma lógica completamente diferente da nossa (para nós, um caos), mas que, no fim, milagrosamente, funciona pra eles”.

O intercambista conta que a cultura do país o forçou a desconstruir certos conceitos que ele achava que valiam pro mundo todo. “Eu brincava que, na Índia, em cada esquina acontecia algo que fazia ~cair meus butiá do bolso~ (uma expressão gaúcha para quando a gente fica muito surpreso com alguma coisa)”. O grande aprendizado do João foi ver que a nossa visão ocidental não é melhor, mais certa ou mais justa do que a dos indianos. É apenas diferente.

Será que os brasileiros conseguem sobreviver ao trânsito indiano?

Na viagem, contratempos e histórias engraçadas não faltaram pro João. Choveu quando acampou no deserto, teve que sair correndo atrás do ônibus em Mumbai e a imigração implicou com o visto borrado. Mas a grande lição veio de uma história meio inesperada. Na cidade de Pushkar, na Índia, ele lembra que estava um pouco de saco cheio com o pessoal tentando aplicar “golpezinhos financeiros”. Foi quando um menino chamado Natu se aproximou. O João estava todo desconfiado e pensando qual o golpe que o menino iria aplicar. Mas a situação foi indo e, no fim, acabou viajando por vários lugares da região com Natu. O indiano arranjou até uma moto emprestada de um amigo para viajarem. Cobrou só a gasolina. “Visitamos vários lugares e, por fim, a casa dele, que era um lugar muito humilde, praticamente uma barraca”. Foi ali que o João viu que no meio do pessoal que tentava se aproveitar dos intercambistas, tinha encontrado um indiano que estava passeando com ele pela diversão de passar o tempo praticando inglês. No fim, fez até questão de comprar um dos dvd’s do Natu tocando música, que é o produto de sustento dele.

Conteudo5João com Natu (sem camisa), o indiano gente boa de quem ele desconfiou!

E valeu a pena?

Imagine amadurecer mais ou menos 50 anos em cinco semanas. Pode parecer exagero, mas foi assim que o João se sentiu quando voltou do intercâmbio. Ele está cursando Direito em Porto Alegre e lembra com felicidade dos tempos na Índia. “Óbvio que eu acharia legal ir para Dublin, Londres, Austrália. Mas vejo tanta gente que vai para esses lugares e vive rodeada de pessoas de sua cidade natal, fazendo só coisas com essas pessoas e coisas típicas de sua cidade. Isso limita muito a experiência. É como continuar em Porto Alegre, mas com uma paisagem diferente”.

Graças aos outros intercambistas, o João teve a oportunidade de conhecer não uma, mas várias culturas e fazer amigos dos mais diversos lugares. E não bastasse tudo isso o intercâmbio ainda foi um diferencial profissional. “Quando digo que fui para a Índia, as pessoas já me olham diferente, com um olhar mais interessado e curioso em relação ao que tenho a dizer”.

João, de branco, participando de uma cerimônia de casamento hindu.

A dica do João, se você está “meio assim”, é ir. E, se der medo, ir com medo mesmo. Segundo ele, somente duas coisas podem acontecer por lá: ou você vai amar a experiência e amadurecer muito, ou vai odiar a experiência e também vai amadurecer muito talvez até mais do que se tudo tivesse acontecido exatamente como você esperava 🙂

João em frente ao Taj Mahal, o famoso palácio indiano.

Dicas, pra que te quero!

Fica ligado nas dicas do João se você pensa em fazer intercâmbio em um país nada convencional:

  • Saia da sua zona de conforto;
  • Certifique-se de que escolheu uma agência, empresa ou organização séria pra te ajudar;
  • Encontre um emprego ou curso de confiança;
  • Tenha em mente que  vai ser uma experiência única, de crescimento imensurável;
  • Saiba que o medo e o receio de viajar (principalmente para lugares como a Índia) é natural;
  • E, se der medo, vai com medo mesmo!

 

Curtiu o intercâmbio do João pra Índia? Esperamos ter te ajudado a conhecer um pouco mais do que é ser intercambista nesse país – e que você lembre desse post enquanto estiver torcendo pela Maya e pelo Raj na novela!