Não entre em pânico! Ter vontade de trocar de curso na graduação é comum. Bem mais comum do que você imagina. Contar para os pais, trancar a faculdade, conseguir vaga no curso desejado (isso se você já tem uma ideia do que quer fazer) pode parecer um dragão de muitas cabeças.

Nesse post, vamos contar as histórias do Moa e da Alycia, e você vai ver que o dragão pode ser, talvez, apenas um moinho de vento. Bem-vindo a mais um post da Escolha Profissional Sem Crise!

Das estruturas aos alimentos

Se você está pensando em trocar de curso, acredite, a Alycia te entende. A estudante de 21 anos, natural da Zona Oeste do Rio de Janeiro, está passando por esse dilema.

 

Ela prestou seu primeiro vestibular para Engenharia Civil, acabou conseguindo vaga para Arquitetura e Urbanismo e agora sonha em cursar Nutrição. Calma que a gente explica melhor! – 

 

Alycia começou sua jornada acadêmica cursando Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Como o curso tinha proximidade com o de Engenharia Civil, ela cursou alguns períodos pensando em depois aproveitar essas disciplinas se trocasse de curso: “Eu acabei gostando e fiquei por um bom tempo estudando na Rural. Lá o curso é muito focado em Estrutura, bem próximo de uma Engenharia Civil, porque o foco em cálculo é muito grande.”

Alycia conseguiu transferência para a UFRJ, com a ideia de conhecer melhor as outras áreas de Arquitetura e Urbanismo:

 

Eu fui pra UFRJ justamente pra conhecer as outras áreas e, quando eu cheguei nas outras áreas, eu percebi que só levo jeito pra Estrutura! (risos)” 

 

3Alycia (blusa rosa, à esquerda) no seu trote como bixo de Arquitetura e Urbanismo da UFRRJ. Arquivo pessoal.

Nesse meio tempo, ela passou por um período de complicação na saúde, o que a fez pesquisar muito sobre alimentação. Com o que aprendeu, decidiu virar vegana e mudar de curso, mas dessa vez para Nutrição! Como as áreas de Nutrição e Arquitetura e Urbanismo não têm disciplinas próximas ou similares, Alycia não vai conseguir solicitar transferência interna. :/

 

Eu vou fazer o Enem de novo; e a prova da UFRJ e da UERJ também.”

 

Alycia compartilhou um pouco sobre a reação da família quando ela contou sobre a decisão de prestar vestibular para Nutrição: “Minha mãe…eu acho que ela nunca desaprovou a ideia, ela só ficou um pouco receosa no começo; e o meu padrasto também tinha essa ideia de ‘você tem que terminar o que começou’, mas ele nunca chegou a me impedir de nada; foi ele, inclusive, que conseguiu vaga em um cursinho pré-vestibular comunitário pra mim. Meus avós se surpreenderam com a ideia e acham que é muito cedo pra eu tomar alguma iniciativa, porque eles acham que eu vou deixar de ser vegana.”

Alycia dá a dica para quem pensa em enfrentar essa barra:

 

Eu pensei muito na questão de que eu ia demorar muito pra me formar (Eu estaria me formando ano que vem…), mas eu acho melhor você demorar a pegar o diploma, do que você ter um diploma e não ter vontade de exercer a profissão ou ser infeliz enquanto profissional, fazendo mal o seu trabalho. Então, se der pra trocar – e quiser trocar – troca.”

 

Da Agronomia à microcervejaria

Moacir Schneider (o Moa) nos conta essa jornada da perspectiva de quem está quase concluindo o curso. Natural de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, ele morava em Porto Alegre desde pequeno, mas tinha uma forte proximidade com o campo, graças ao avô, que plantava pequenas árvores frutíferas e morangos no quintal de casa.

 

Quando adolescente, Moa se sentia um pouco perdido sobre o que queria fazer na faculdade, mas gostava muito de Biologia e da ideia de plantar,  então começou a considerar o curso de Agronomia. – 

 

Não passou na primeira tentativa no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), apesar de ter tido boas notas em quase todas as matérias. Por isso, acabou prestando vestibular (e sendo aprovado) na cidade de Lavras, no interior de Minas Gerais, onde cursou 2 anos de Agronomia e admite: “Foram os melhores anos da minha vida.”

5Na época que estudou em Lavras, entre 1999 e 2000, Moa fez um estágio no Chile. Arquivo pessoal.

“Foi uma experiência muito boa; eu gostei muito (olhando retrospectivamente), mas, na época, não tinha uma conexão muito forte com a minha realidade, de um adolescente que morou em Porto Alegre, que tinha banda, que jogava bola. Acabou que perdi um pouco do interesse pelo curso.” Moa largou a graduação em Lavras e voltou para Porto Alegre. Prestou vestibular para Agronomia novamente na UFRGS e desta vez foi aprovado. Cursou um semestre, mas, desmotivado, largou o curso.

8Outra foto da época do estágio no Chile! Arquivo pessoal.

Olhando hoje, foi uma coisa bem impensada. Me arrependo bastante de ter abandonado o curso, pela volta que a minha vida deu. Na época parecia a melhor coisa a ser feita e fiquei meio que um ano e meio sem saber muito o que fazer.”

A vida depois da Agronomia

Depois de desistir da Agronomia pela segunda vez, Moa fez um bocado de coisas ao longo de 2 anos: curso técnico de Gestão na Escola Técnica da UFRGS (“Absolutamente não era pra mim aquele curso…”); trabalhou na pequena livraria do pai; fez cursos de fotografia e passou em concurso público.

Moa nos conta um pouco de como sua família reagiu às desistências: “Minha família reagiu muito mal quando eu larguei Agronomia. Eu tinha uma coisa meio latente em mim, que era de viajar, e meu pai meio que bloqueou isso porque eu tinha passado em boas universidades; ele ficou bem chateado, porque ele queria muito que eu fizesse Agronomia…ele tinha uma forte ligação com o campo por causa da infância dele. Olhando agora, eu percebo que teria sido muito bom pra mim se eu tivesse viajado; foi uma experiência que eu acabei não tendo e foi bem frustrante. Não houve uma briga familiar nem nada, mas eles não gostaram muito. Mas como aquilo era muito forte dentro de mim e eu via naquele momento que aquilo [continuar a graduação] não servia pra mim, e passei por cima disso.

Moa acabou prestando vestibular para Publicidade e Propaganda na UFRGS, sendo aprovado na segunda tentativa, e conta que a família ficou um pouco mais calma por um tempo. Ele quase concluiu o curso (só faltou um semestre e a monografia de final de curso), mas conta que também se decepcionou. Chegou a trabalhar em uma agência de publicidade, mas se sentia cada vez mais desmotivado.

7Um dos cartazes que ele criou na época que cursava Publicidade. Arquivo pessoal. 

O estudante tinha muita vontade de desenvolver um empreendimento, criar algo e deixar sua marca. Porém, tanto nas áreas de Agronomia quanto Publicidade, isso requer muito investimento. E então ele conheceu a cerveja artesanal e, com um grupo de amigos, decidiu fabricar cerveja:

2Moa na microcervejaria! 🙂 Arquivo pessoal.

Como eu tinha conhecimento de criação de layout, de identidade visual, foi muito fácil pra mim, junto com meus amigos, desenvolver esse empreendimento, bolar uma marca legal. E o produto ficou bom! Aquilo abriu a porta para eu realmente criar algo.”

 

Os pais de Moa haviam recém comprado uma casa no interior, que costumava abrigar uma pequena fábrica de chocolate no piso inferior. “Ela tinha uma adequação toda para a parte de produção de alimentos e foi automático: agora é a hora de sair do mercado publicitário e empreender.” Os amigos e sócios não tinham a mesma intenção na época. Ele ficou com a marca e tocou o negócio por conta, abrindo sua microcervejaria.

1Moa com a marca que criou para a cerveja, fruto dos tempos de Publicidade e Propaganda. Arquivo pessoal.

Com o novo empreendimento, ele percebeu que precisava de mais conhecimento sobre o assunto e começou a cursar Tecnologia de Alimentos, em Bento Gonçalves.

 

Quando eu larguei Publicidade e Propaganda e decidi montar a microcervejaria, eu pensei: ‘eu preciso aprender a fazer isso direito’ e entrei em Tecnologia em Alimentos; foi o grande encontro profissional da minha vida, eu realmente me achei.”

 

Na época, Moa já morava em Nova Petrópolis, há 85 quilômetros de distância de Bento Gonçalves, e muitas vezes precisava deixar a microcervejaria para passar a semana estudando. Ele sentia a necessidade de concluir algum curso: “Preciso me formar em alguma coisa, preciso entregar o diploma pro meu pai; inclusive minha formatura vai ser no dia do aniversário dele, então vai ser perfeito! Estou me formando agora no final no ano, enfim, depois de 19 anos do meu primeiro ingresso na universidade.”

4Aprendendo sobre apicultura no curso de Tecnologia em Alimentos. Arquivo pessoal.

Mas a conclusão do curso vai muito além disso: ele garante que, mesmo que não permaneça cervejeiro pro resto da vida, tem a certeza que vai trabalhar na indústria de alimentos:

 

Quando a gente acha alguma coisa que gosta de fazer, nada é um sacrifício, é realmente um prazer.”

 

O gaúcho de 37 anos acredita que a grande questão na escolha do curso é a experiência. “Ir para o exterior é uma maneira de ter experiências, mas existem outras. Se eu tivesse um filho hoje, eu diria: ‘Faça um curso técnico, faça um curso livre, trabalhe como atendente em uma loja de pesca, qualquer coisa, trabalhe como auxiliar de padeiro’. As tuas experiências vão dizer quem tu é. Tem que tentar. A gente não tem obrigação de saber para o que a gente serve.”

Para quem está no meio do curso e não está satisfeito, Moa sugere enfrentar a questão com tranquilidade: “Nada impede que a pessoa retorne. Às vezes eu tenho a impressão de que eu vou fazer Agronomia de novo, pela terceira vez, e nada impede isso.”

 

Ele afirma que a pressão dos pais, amigos e sociedade podem ser difíceis, mas que a decisão cabe a cada um. – 

 

6Moa no curso de Tecnologia em Alimentos. Arquivo pessoal.

“Eu hoje vejo que se eu não tivesse feito esse caminho, quanto coisa não ia ter ficado pra trás? As coisas que eu aprendi sobre a morfologia dos grãos de cevada em Agronomia me ajudaram muito quando eu fiz uma pós-graduação ligada à cerveja, assim como morfologia de lúpulo, bioquímica e transformação. Criar minha marca só foi possível porque eu fiz o curso de Publicidade, porque eu trabalhei em agência. Então, o caminho também te ensina algumas coisas, o caminho também é engrandecedor.”

Dicas, pra que te quero!

Se liga nas dicas da Alycia e do Moa se você está pensando em trocar de curso:

  • Fazer um curso técnico antes da faculdade pode ajudar a definir melhor seus interesses;
  • Fazer estágios durante a graduação te dá uma ideia de como funciona o mercado de trabalho (e você pode descobrir que ama ou odeia sua futura profissão);
  • Suas experiências fazem parte do seu aprendizado e podem te ajudar a definir sua graduação com mais maturidade;
  • Viaje, trabalhe em lugares diferentes, explores opções;
  • Cursos livres podem te ajudar a descobrir suas aptidões;
  • Você não é obrigado a acertar o curso de primeira; relaxe;
  • Nada é eterno, tudo se transforma: nenhuma decisão sobre sua graduação é definitiva;
  • Sua família pode não gostar da ideia; por isso, explique suas frustrações e motivações.

E aí, curtiu conhecer a história da Alycia e do Moa? Trocar de curso não precisa ser um bicho de sete cabeças.  😉

Fica ligado que a Escolha Profissional Sem Crise continua com outros posts! Até mais!