“A diferença entre o remédio e o veneno é a dose..” Essa frase foi dita por Paracelso, um médico alquimista que viveu na Áustria no século 16.  

 

Basicamente, ele quis dizer que tudo que vemos por aí tem um “potencial” tóxico: drogas, plantas, alimentos, medicamentos, poluentes e por aí vai. –

 

É por causa dessa reflexão, entre outros méritos, que ele é considerado o pai da Toxicologia, ciência que deu origem a uma graduação chamada Toxicologia Análitica, o tema desse post da Série Profissões.

A graduação tecnológica tem a duração de três anos e forma profissionais para identificar e analisar quimicamente agentes tóxicos ao meio ambiente e aos seres humanos. Os estudantes também aprendem a prevenir acidentes tóxicos e a lidar com as consequências deles.

 

Se você pensou “Huuum, isso parece meio CSI”, é bem por aí mesmo! –

 

Já bastante difundida na Europa, aqui no Brasil a profissão de toxicologista analítico é muito nova. Tanto que existe apenas um curso de graduação em todo o país. Antes disso, os profissionais que se interessavam pela área tinham que cursar uma pós-graduação. Desde 2011, a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA, ou só Fundação mesmo) oferece a graduação.

7Campus da Fundação ou UFCSPA em Porto Alegre! Arquivo pessoal.

Nós conversamos com duas toxicologistas formadas no curso para entender como tudo funciona. A Mariana Luzzatto, de 23 anos, porto-alegrense que hoje mora em Florianópolis, foi aluna da primeira turma do curso, em 2011, e se formou em 2014. Já a Luiza Steffens, de 21 anos, natural de Gramado, no Rio Grande do Sul, entrou em 2014 e se formou em dezembro de 2016. Confira o que elas nos contaram!

Uma escolha nada convencional!

Muita gente nem se deu conta, mas o Sistema de Seleção Unificada, o Sisu, mudou a ordem de escolha da profissão. Antes, os alunos faziam a inscrição para o vestibular, onde optavam pela graduação que gostariam de cursar. Com o novo processo, é possível esperar a nota do ENEM para ver em qual curso você passaria com aquela pontuação! Foi o que aconteceu com a Mariana e a Luiza.

A Mariana lembra que a escolha não foi nada romantizada. A gaúcha tentava Biomedicina há dois anos, mas não havia feito pontuação suficiente para passar. Foi aí que viu a Toxicologia Analítica entre os cursos da UFCSPA.

 

Achei bem diferentão, igual eu! Pesquisei o currículo e resolvi me inscrever. Era a primeira turma, do primeiro curso do Brasil.”

 

2Essa é a Mariana!:) Arquivo pessoal.

Foi bastante parecido com a Luiza. Depois de pesquisar a grade curricular, foi paixão à primeira vista. Para quem gostava de Química, como ela, era um prato cheio!

 

Achei incrível existir uma graduação que já formasse em algo tão específico.”

 

10Essa é a Luiza! 🙂 Arquivo pessoal.

Química, química, química!

Dos três anos de curso, nossas entrevistadas contaram que o terceiro é o mais legal. É nele que as disciplinas ficam mais específicas.

O dois primeiros anos são dedicados a adquirir um conhecimento base. E é aí que o bicho pega! Segundo a Luiza: “se a pessoa não gosta de Química e Biologia, nem tenta”.

11Luiza (de óculos) realizando análises de agrotóxicos em alimentos. Arquivo pessoal.

As disciplinas bases são parecidas com as de Farmácia e Biomedicina: Anatomia, Fisiologia, etc. Mas a grande estrela da graduação de Toxicologia Analítica é a Química. “Tem que, obrigatoriamente, gostar de Química. Tive química pura em sete matérias diferentes. Elas são fundamentais para entender as específicas”, explica Mariana. A disciplina mais difícil, eleita pela Mariana, é a Química Analítica.

 

A gente tinha até um livro que era uma Bíblia para entender os fundamentos da disciplina. Nós chamamos ele de Skoog.”

 

3Mariana realizando análises nos laboratórios da UFCSPA. Arquivo pessoal.

Um alto nível de exigência!

É um curso difícil, sim! E nossas entrevistadas tentaram nos explicar por que em três motivos.

O primeiro: as disciplinas fundamentais que citamos ali em cima. Logo no primeiro semestre, a Luiza conta que são muitas disciplinas e difíceis. Nem todo mundo consegue se formar no tempo estipulado.

O segundo: o curso é noturno. É uma boa opção para quem trabalha, mas uma péssima opção para quem não tem tempo para estudar em casa. “A pessoa vai precisar estudar no final de semana para dar conta”, ressalta Luiza.

O terceiro: o nível de exigência altíssimo da Fundação. A Mariana lembra que a UFCSPA é considerada uma das melhores instituições de ensino da área da saúde no país e, por isso, cobra muita dedicação dos alunos.

 

Tínhamos os mesmos professores que os alunos de Medicina, Enfermagem, Fisioterapia e Farmácia, por exemplo. Eles não vão diferenciar você de um aluno da Medicina. Vão exigir da mesma forma.”

 

1Mariana (abaixada à esquerda) com as colegas da primeira turma de Toxicologia Analítica. Arquivo pessoal.

Amantes de laboratórios

Se escolher Toxicologia Analítica, prepare-se para viver nos laboratórios da Faculdade e, quem sabe, depois de formado(a), trabalhar em laboratórios fora dela.

8Aula de Prática em Microbiologia! Arquivo pessoal.

Também não dá para ter fobia de animais, como cobras, aranhas, etc. Você não vai precisar pegá-los, mas, eventualmente, terá que ver alguns deles. Nas aulas da anatomia, o estudo ocorre em corpos da própria Fundação. “A pessoa não pode ter medo disso”, explica Mariana.

Partiu, estagiar!

Depois de passar por todas as disciplinas, o último semestre é dedicado aos estágios. O curso da UFCSPA faz convênios com laboratórios privados e instituições, como a Polícia Federal (olha o CSI aí!).

Também há lugares para se estagiar dentro do curso, como os laboratórios. Luiza fez seus estágios no Laboratório de Toxicologia da UFRGS e no Laboratório de Genética Toxicológica da UFCSPA.

6Luiza (de cachecol verde) e os integrantes do Laboratório de Genética Toxicológica na I Mostra de Trabalhos da UFCSPA. Arquivo pessoal.

O Centro de Informação Toxicológica do Rio Grande do Sul (CIT), que, através de ligações, presta as primeiras informações às pessoas que foram picadas por cobras, ingeriram produtos tóxicos ou enfrentaram outras emergências do tipo, também é uma opção de estágio. Os alunos de toxicologia analisam as amostras mandadas ao laboratório do CIT.

Outro lugar legal de estagiar fica dentro da própria UFCSPA. É o serviço de atendimento 24 horas Ligue 132, que oferece orientações, informações e aconselhamentos para usuários de drogas e familiares.

4Mariana no dia da formatura! Arquivo pessoal.

A Mariana fez o estágio obrigatório em um laboratório de análises toxicológicas ambientais em Viamão, cidade da Grande Porto Alegre. “Eu auxiliava em análises de frutas, para medir qual a quantidade de agrotóxico nesses produtos.”

Onde trabalhar?

Como a área é muito nova no Brasil, os toxicologistas ainda estão procurando seu espaço no mercado. Estão aptos a trabalhar em laboratórios públicos e privados, fazer pesquisa, trabalhar na indústria ou nos setores de controle de qualidade e acreditação de laboratórios, entre outros.

9Muito tempo no laboratório: a vida do toxicologista! Arquivo pessoal.

Há também ramos mais específicos, como o da Toxicologia Ocupacional, que avalia quando o trabalhador está se expondo a substâncias tóxicas. O Ligue 132, que comentamos antes, se encaixa em outro ramo, o da Toxicologia Social, que trabalha a questão do combate às drogas lícitas e ilícitas.

Carreira acadêmica!

Desde o primeiro semestre, Luiza fez iniciação científica no Laboratório de Genética Toxicológica da Fundação. A estudante é apaixonada por esse trabalho, que inclui o estudo de tudo aquilo que pode modificar o nosso DNA. Com a chegada da formatura, o plano é continuar estudando.

 

Pretendo fazer mestrado em Biociências e continuar na área de reparo de DNA, que é sensacional!”

 

12Luiza (no fundo, à esquerda) se formou em dezembro de 2016. Arquivo pessoal.

A Toxicologia no meu dia a dia

Depois de se formar, em 2014, Mariana passou seis meses como técnica em um laboratório de pesquisa da UFRGS. Foi quando recebeu uma proposta para trabalhar na Garantia da Qualidade de uma indústria de medicamentos. Verificava se os distribuidores e fornecedores cumpriam todas as exigências da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Participou do registro de oito medicamentos, coletando a documentação e analisando tudo criticamente. “Cada dossiê de registro tem umas mil páginas”, conta.

Por ser uma pessoa bem comunicativa, a gaúcha chamou a atenção da área comercial da mesma indústria e, desde julho de 2015, passou a trabalhar com vendas de medicamentos. Hoje, ela é supervisora de vendas da P&G, a maior indústria de bens de consumo do mundo, e mora em Florianópolis. “Não tem nada a ver com Toxicologia. Mas a experiência na indústria me levou a encontrar quem eu sou como profissional. Tenho muito mais aptidão para vendas do que para uma carreira acadêmica.”

 

A Toxicologia está sempre presente na minha vida. Seja na hora de esclarecer alguma dúvida para amigos durante um churrasco ou nas mudanças que faço no meu estilo de vida, como deixar de usar potes de plástico, por exemplo.”

 

5Mesmo trabalhando com vendas, Mariana ainda utiliza os conhecimentos aprendidos no curso. Arquivo pessoal.

Dicas, pra que te quero!

Já tinha ouvido falar em Toxicologia Analítica? Curtiu conhecer o curso? Então se liga nas dicas da Luiza e da Mariana:

  • Pode não ser um curso difícil de entrar, mas é difícil de sair. Então, estude, tire dúvidas, converse com os professores;
  • Tenha paciência! Como qualquer curso de graduação, há matérias muito legais e outras nem tanto;
  • Não desista só porque o curso é novo ou porque você tirou uma nota baixa em alguma avaliação;
  • Esteja pronto para encarar um mercado difícil;
  • Aproveite a graduação para fazer networking. Quando menos se espera, pode surgir um novo campo de trabalho ou pesquisa em Toxicologia!

Em breve, a gente fala sobre outras opções “diferentonas” aqui na Série Profissões. Até o próximo post! 😀