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Muita gente cria estereótipos para as profissões. O dos físicos, como você pode imaginar, envolve sempre os cabelos arrepiados do Einstein ou então a imagem dos nerds de The Big Band Theory, como o famoso Sheldon Cooper (bazinga!).

O que Einstein diria sobre esse gif? TheApricity.com.

 

Mas será que quem cursa Física tem alguma coisa a ver com esses estereótipos? –

 

Para tentar encontrar a resposta, nesse post da Série Profissões conversamos com o Arthur Casa Nova Nonnig, 24 anos, que está no quinto semestre do Bacharelado com habilitação em Pesquisa Básica, e com a Marina Sanfelice Valenzuela, 26 anos, formada na Licenciatura desde 2013. Ambos cursam/cursaram a graduação de Física na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Confira o que eles nos contaram sobre a experiência!

Entre o Jornalismo e a Física

Desde o colégio, Arthur tinha facilidade para as Exatas, mas a vontade de escrever e criar o levou a prestar vestibular para Jornalismo. Só que durante o curso ele percebeu que alguma coisa estava errada.

 

Notei nos meus colegas uma gana pelo Jornalismo muito maior do que a minha, que diminuiu quando vi as condições do mercado e a desvalorização da profissão.”

 

A crise com a graduação que tinha escolhido levou Arthur a retomar a ideia de fazer Física. Como já estava perto do final do curso de Jornalismo, ele decidiu se formar e prestar um novo concurso, dessa vez para Física. “Foi uma incrível mistura de TCC e estudos para o vestibular”, lembra.

3Além de ser jornalista e cursar Física, o Arthur também faz shows de stand-up comedy nas horas vagas! Arquivo pessoal.

Das áreas das Exatas, a Física foi sempre a preferida de Arthur. Um físico pode tanto estudar aglomerados de galáxias quanto interações de partículas.” Além disso, ensinar e instigar outros jovens a seguir esses campos de estudo é algo que o estudante tem vontade de fazer.

Um professor vidente?

No Ensino Médio, Marina ouviu da pessoa que aplicou um Teste Vocacional: “você tem perfil para ser professora”. Era o que ela queria ouvir desde o início. Então, no último ano da escola, a estudante estava decidida a prestar o vestibular para o curso de Letras.

10Essa é a Marina participando de um dos experimentos do Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS. Arquivo pessoal.

Ao longo do Ensino Médio, Marina participou do Clube de Física, onde os estudantes viam na prática os conceitos estudados em aula. Foi nesse clube que um professor plantou a semente da Física na Marina.

 

Lembro que ele me apresentou a um de seus colegas e disse que eu iria fazer Física, só que eu não sabia disso ainda.”

 

A fala dele foi suficiente para ela considerar a ideia. Pesquisou o currículo do curso no site da UFRGS e gostou das disciplinas. A decisão estava tomada!

Aptidão para Exatas

Desde 2010, o curso de Física da UFRGS, antes dividido apenas em Bacharelado e Licenciatura, mudou. Agora, o pessoal do Bacharelado pode optar entre quatro habilitações diferentes: Astrofísica, Materiais e Nanotecnologia, Pesquisa Básica (a do Arthur) e Física Computacional.

2Esse é o Campus do Vale, onde fica o Instituto de Física da UFRGS, em Porto Alegre. Arquivo pessoal.

Sobre o estereótipo das pessoas que cursam Física, que comentamos lá no início do post, o Arthur disse que o curso reúne pessoas de diferentes estilos e personalidades. Nada de cabelos arrepiados, mas muitos jovens com aptidões incríveis para a área de Exatas. “São jovens que disputavam Olimpíadas de Física e Matemática e sempre tiraram boas notas no colégio.”

O que surpreendeu mesmo o Arthur foram os projetos de extensão do Instituto, como Aventureiros do Universo e Observatório Educativo Itinerante, que realizam uma série de atividades para levar o ensino de Astronomia para as escolas. Outra iniciativa que chamou atenção foi o projeto Meninas na Ciência, que trabalha para aumentar a participação e valorizar a presença das mulheres nas ciências.

Prepare-se para a Matemática!

Quando perguntamos o que é preciso para cursar Física, nossos entrevistados responderam a mesma coisa: afinidade com a Matemática. No início do curso, segundo o Arthur, ela é mais importante do que a própria Física. “Os primeiros anos do curso dão uma base matemática para o estudo mais profundo da Física.”

5O Arthur curte usar quadros para memorizar os conteúdos (e também as piadas!) Arquivo pessoal.

Disciplinas de cálculo e de equações diferenciais, por exemplo, ajudam os estudantes a aprofundar as demonstrações e estruturas das teorias físicas. Para a Marina, é necessário ter muita organização, paciência e persistência para entender tudo.

 

Os conceitos exigem abstração, concentração e muita reflexão para serem compreendidos. Gostar de Física e de Matemática deixa tudo mais fácil.”

 

Segundo o Arthur e a Marina, existem disciplinas bastante difíceis, mas o principal é ter em mente que o curso vai consumir muito da sua energia. Você vai precisar se dedicar fora da sala de aula. Nos primeiros semestres, esteja preparado para as matérias de Física Geral (I, II e III), Métodos Aplicados de Matemática, Álgebra Linear e Vetores e Geometria Analítica. Na Licenciatura (caso da Marina), há também disciplinas que preparam para atuar em sala de aula.

6Marina (a terceira da esquerda para a direita) em 2011, durante a apresentação de um projeto em São Paulo. Arquivo pessoal.

Poucos, mas grandes colegas

Como o curso tem algumas disciplinas bem difíceis, é comum os estudantes fazerem as matérias mais de uma vez. Por isso, segundo a Marina, os colegas que entram juntos acabam não se mantendo durante todo o curso. Isso, somado às desistências e transferências, faz as turmas serem reduzidas. Mas há um lado positivo: “Como as turmas costumam ser bem pequenas (estamos falando de grupos entre 6 e 10 pessoas), o vínculo que se cria com os colegas é muito mais intenso e as trocas muito mais ricas”, explica Marina.

12Marina em um curso de Física para secundaristas em 2012. Arquivo pessoal.

O Arthur curtiu muito as aulas com os colegas, que ele define como “uma reunião muito interessante de jovens com vontade de aprender”. Comparando com a Comunicação, ficou surpreso com o foco e o silêncio nas aulas. “Era raro na Comunicação, devo dizer.”

1Arthur (no centro da segunda fileira) com os colegas da Física. Arquivo pessoal.

Teoria e prática em descompasso

É claro que, como toda graduação, a de Física também tem seus problemas. Segundo o Arthur, o principal deles é a descontinuidade de algumas disciplinas. Nos primeiros semestres, acontece de os estudantes não verem todo o conteúdo porque falta base para entender. Depois, fica ainda mais complicado, pois aulas experimentais (práticas) e teóricas são separadas.

 

Muitas vezes o experimento atropela o conteúdo teórico. Tudo funcionaria melhor se ambas caminhassem como uma só.”

 

A Marina lembra que era bastante difícil dialogar com os professores sobre algumas frustrações com o currículo e a forma como as aulas eram conduzidas.

11Marina entre os formandos de Física da turma de 2013. Arquivo pessoal.

Um mercado carente

Como é o mercado de trabalho? Depende. A pesquisa fica um pouco restrita às universidades mesmo, segundo o Arthur, mas algumas grandes empresas de inovação tecnológica já têm físicos na equipe. Arthur pensa em seguir a carreira acadêmica de professor e pesquisador.

4Depois de ter conversado com a gente para esse post e antes do texto ser publicado, o Arthur se tornou um dos professores de Física no Me Salva! 😎 Arquivo pessoal.

Com os cursos de Bacharelado ficando mais específicos, o trabalho pode ir “desde prever matematicamente o resultado da colisão entre duas partículas em um colisor até regular os equipamentos de tomografia de um hospital”, explica a Marina.

 

– A professora tem colegas que trabalham no mercado financeiro, onde o pessoal com formação em Física é conhecido por analisar e solucionar problemas. –

 

Já para quem quer dar aula, o mercado também está favorável. Segundo Marina, muitos professores de Física têm formação em Matemática ou em Engenharia, e não em Física propriamente dita.

E não é que o professor tinha razão!

Hoje, a Marina é professora de Física em duas escolas, nas turmas de 9º ano do Ensino Fundamental e de 1º ano do Ensino Médio. Em uma delas, fundou o Clube de Astronomia.

9A professora Marina (usando lenço vermelho, no centro) em visita ao Planetário da UFRGS com alunos do Ensino Fundamental. Arquivo pessoal.

Mas a informação mais curiosa vem da outra escola, onde ela estudou e agora, além de lecionar, se tornou professora do Clube de Física (o mesmo que ela participava e onde um professor a inspirou a seguir a carreira). “Hoje sou apaixonada pelo que faço.”

7Antes aluna, Marina agora é professora do mesmo Clube de Física que participava na escola. ❤️️ Arquivo pessoal.

Dicas, pra que te quero!

A Física é uma das suas opções? Então se liga nas dicas da Marina e do Arthur!

  • Revise bem a Matemática do Ensino Médio para já entrar bem na universidade;
  • No início da graduação, procure não se desfazer dos seus materiais do Ensino Médio. Consultá-los ajuda a clarear conceitos mais complexos;
  • Seja persistente e paciente. Encontre, nos seus colegas e professores, o apoio necessário para vencer as dificuldades do curso;
  • Tenha o hábito de acompanhar as disciplinas, não postergar o estudo ou acreditar que em cima da hora tudo se resolve;
  • Não deixe de perguntar quando tiver dúvidas e, acima de tudo, mantenha em dia suas atividades;
  • Procure se envolver com estágios ou bolsas de iniciação científica, assim como congressos e encontros. Essas atividades ajudam a manter a motivação;
  • O curso de Física pode não ser fácil, mas se tornar um físico ou professor de Física também está longe de ser uma meta inatingível;
  • Deixe-se encantar pelas teorias sobre o mundo que nos cerca. A natureza é fascinante!

Curtiu conhecer a graduação de Física? Então aproveita pra ler os posts de Química e Matemática, outros dois cursos que são Exatas na veia! Até o próximo post! 😀