Afinal, o que estuda um antropólogo? Nesse post, da Série Profissões, te respondemos tudo o que você precisa saber sobre essa profissão! 😉

A Antropologia tem como objeto o estudo sobre o homem e a humanidade de uma maneira totalizante e abrangente. Os costumes, crenças, diversidade, hábitos e aspectos físicos dos diferentes povos que habitam o planeta (ou os que não existem mais) fazem parte dos estudos desse profissional.

O antropólogo pode trabalhar com análise de materiais recolhidos em sítios arqueológicos ou estudar a linguística e a complexa relação de linguagens entre os povos, por exemplo.

 

Atualmente existem poucas instituições de ensino superior credenciadas pelo MEC que oferecem o curso de Antropologia. Como alternativa, existe a habilitação em Antropologia dentro de alguns cursos de Ciências Sociais. 

 

Conversamos com Mislene, Bacharel em Antropologia e Mestra em Antropologia Social, e Andréa, Bacharel em Ciências Sociais com habilitação em Antropologia, Mestra em Antropologia Social e Doutora em Ciências Sociais para saber como foi a experiência delas com o curso e como é o dia a dia da profissão.

5Andréa em sua primeira pesquisa de campo, que durou 7 meses, na Colocação Lago Ceará, Alto Rio Juruá, em outubro de 1994. Alexandre Goular.

Estudando o Homem e a Humanidade

Mislene Metchacuna Martins Mendes tem 29 anos, mora em Benjamin Constant, no Amazonas, e fez parte da primeira turma do Curso de Antropologia do Instituto de Natureza e Cultura da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Ela é indígena da etnia Ticuna e nos conta que os motivos que teve para ingressar no curso de Antropologia são relacionados ao seu povo.

Seu pai, liderança Ticuna e ativista do Movimento Indígena da região, sempre incentivou seus filhos a buscarem formação em diversas aéreas para auxiliar o projeto de luta dos Ticuna para conquistar a Demarcação das Terras Indígenas, mais educação e saúde.

 

Entre muitos conselhos de meu pai, ele costumava falar nas grandes assembleias indígenas que nosso povo precisava ter seus próprios profissionais, entre eles: antropólogos, médicos, advogados, etc. Foi lembrando desse discurso dele que de cara escolhi o curso de Antropologia quando prestei o vestibular na UFAM.”

 

Andréa Martini tem 45 anos, é natural de Lajeado, no Rio Grande do Sul, e é professora na Universidade Federal do Acre, em Cruzeiro do Sul. Formada pela Unicamp, atualmente é professora no curso de Licenciatura Indígena, oferecendo disciplinas como Antropologia Básica, Metodologia de Pesquisa, Cultura Brasileira e Sociologia.

1Reunião na Aldeia Belo Monte, Terra Indígena Kaxinawá do Alto Jordão, Acre, em agosto de 2010. Andréa Martini.

Ela conta que o que a motivou a entrar no curso foi seu interesse em trabalhar com indígenas. Quando descobriu que o Antropólogo estuda indígenas cultural e cientificamente, não teve dúvidas: prestou vestibular para o curso de Ciências Sociais com habilitação em Antropologia, já que na universidade onde queria estudar não havia essa graduação.

Mislene conta que, como foi a primeira vez que prestou vestibular e para a primeira graduação em Antropologia no Brasil, ela estudou bastante e foi atrás de leituras para entender melhor como seria o curso. Ela confessa que, na época, não achou muitas informações sobre a grade curricular do curso.

 

Meus professores do curso recepcionaram muito bem a primeira turma de 50 pessoas, enfatizando que seríamos as cobaias do curso que poderia dar certo ou não. Minha turma aos poucos foi diminuindo por questões diversas, inclusive porque um de nossos professores falou que Antropologia era ‘um curso que não dava dinheiro e que o mercado de trabalho para antropólogos era escasso’. Com isso, vários colegas desistiram do curso.”

 

Ela conta que, por ser um curso novo, eles contavam com apenas 3 professores, com pouca estrutura administrativa e a biblioteca deixava a desejar.

 

Tínhamos acima de tudo a boa vontade de ensinar dos professores e a de aprender dos alunos. Tivemos muitos desafios, fizemos greve e mobilização estudantil em prol de melhorias da qualidade do ensino superior ofertado pela UFAM em Benjamin Constant. Após isto, as coisas foram melhorando, chegaram novos professores com o concurso público e a biblioteca foi melhorada, inclusive a construção do novo prédio da UFAM finalmente foi iniciado.”

 

Andréa conta que sua rotina do curso foi de muito estudo: “As obras são lidas na íntegra, geralmente os clássicos das ciências humanas universais, Sociologia, Antropologia e Ciência Política com pitadas de História e Geografia. Tem que ler muito. Se a pessoa se interessar logo pela leitura ajuda muito depois. O conselho é estudar muito”.

3Mislene participando da fiscalização em Terras Indígenas do Alto Solimões, a caminho da Ilha São Jorge. Arquivo Pessoal.

Com essa amplitude de matérias na grade curricular, ela garante que esse foi um dos pontos fortes do curso, além dos colegas com quem compartilhava interesses e professores memoráveis.

Mislene afirma que gostou de tudo o que aprendeu ao longo da graduação, mas ressalva que os gestores municipais e demais instituições não estão discutindo até hoje o mercado de trabalho para os estudantes de todos os cursos ofertados pela UFAM na sua região.

 

Isto é preocupante, pois muitos formados não têm condições financeiras de sair do município para prestar um concurso público, razão pela qual muitos se encontram trabalhando fora de suas áreas, desempregados ou sem perspectiva profissional.”

 

2Apresentação dos Trabalhos de Conclusão (TCC´s) no Curso de Formação Docente para Indígenas, na Universidade Federal do Acre, Campus Floresta, Cruzeiro do Sul, onde Andréa é professora. Andréa Martini.

Porém, ela conta que suas expectativas profissionais vêm se realizando: desde 2010 é concursada pública na FUNAI, trabalhando atualmente como Coordenadora Regional. No seu trabalho, o conhecimento antropológico é primordial para que ela tenha uma boa atuação ao reconhecer e respeitar as especificidades culturais dos povos indígenas e outros segmentos sociais.

Andréa também está contente com sua escolha profissional: “Minhas expectativas se realizaram, pois trabalho com indígenas atualmente. Não dá vontade de parar de pesquisar novos temas. Acho que é o mais rico, além de trazer novidade e aprendizado sempre”.

Mercado de trabalho

Andréa afirma que o mercado de trabalho tem se ampliado e que as possibilidades são boas. Ela conta que trabalhou muito tempo como freelancer (é a palavra em inglês para denominar o profissional autônomo que trabalha em diferentes empresas ou que organiza seus trabalhos por projetos, atendendo seus clientes de forma independente), participando de estudos específicos, projetos de inserção e avaliação e programas de acompanhamento técnico, laudos, inserção de produtos no mercado e propaganda.  

Ela acredita que os valores no trabalho de freelancer com empresas são mais interessantes do que nas instituições de pesquisa e ensino, em que os ganhos são regulares mas mais baixos se comparados à hora técnica de um antropólogo.

4Mislene no Lago do Manduca, na Ilha São Jorge. Arquivo Pessoal.

Mislene afirma que na sua região o mercado de trabalho é escasso, mas sempre é possível trabalhar em ONGs e alguns órgão do governo. – 

 

Respeito à diversidade

Mislene recomenda o curso e dá uma superdica: “A ideia é estudar sobre o que é Antropologia antes de prestar o vestibular, para não ingressar no curso e se deparar com algo que não se identifica”. Andréa também dá força para quem procura um curso que “amplie seu conhecimento e sabedoria em qualquer idade”. Sua dica para os vestibulandos é: “ler muita literatura brasileira, quadrinhos e jornais. Ajuda sempre.”

Para Mislene, os aprendizados foram além da vida profissional: respeitar as visões de mundo dos diversos povos sem exercer sua visão sobre o outro, promover os direitos dos povos indígenas sem exceção, respeito às culturas e especificidades locais e regionais.

Dicas, pra que te quero!

Saca algumas das dicas da Andréa e da Mislene para quem pensa em encarar o curso:

  • Pesquise e avalie a grade curricular do curso antes de prestar vestibular;
  • Leia muito: literatura, quadrinhos, revistas, jornais, etc. Isso vai te ajudar muito, tanto no vestibular quanto durante a graduação;
  • Se não existe o curso de Antropologia na sua região, você pode buscar por graduações em Ciências Sociais com habilitação nessa área. 😉

Curtiu conhecer as histórias da Andréa e da Mislene? Se inspirou em topar o desafio que é estudar Antropologia? Conta pra gente nos comentários. Até a próxima \o