Certamente você já estudou muito sobre a França, não é? País berço de acontecimentos históricos (Revolução Francesa, Iluminismo), pensadores incríveis (Rousseau, Foucault, Sartre, Simone de Beauvoir), músicos icônicos (Édith Piaf, Serge Gainsbourg, Daft Punk), pintores geniais (Monet, Renoir, Cézanne), sem falar na arquitetura e culinária consagrada.

 

Todos já pensaram em turistar pela França, mas como será morar por lá? Nesse post da Série Intercâmbios, a Tamires conta como foi a experiência de viver entre os franceses. Bora? – 

 


disneygifs.com

Doutorado de oportunidades

Em julho de 2015, a jornalista Tamires Coelho, bolsista de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais, soube que o intercâmbio na França ia rolar. Foi uma oscilação de sentimentos em um período muito curto, pois eu tive a notícia da suspensão das bolsas CAPES, inclusive da minha, mas, em seguida, veio a liberação da bolsa sanduíche!”. (Confere aqui nosso post onde explicamos esse sanduíche!).

Tamires conta que o auxílio da sua orientadora foi essencial. “Ela me deu muito apoio e criou pontes para que isso se realizasse. Eu já falava Francês e tive a chance de conhecer alguns professores franceses em um seminário organizado por ela. Foi quando rolou o convite de uma pesquisadora para ser doutoranda-visitante na Sorbonne.”

 

Era uma oportunidade fantástica de aprofundar meus conhecimentos, pensar fora do padrão, ter contato com outra cultura e expandir minha pesquisa.”

 

A pernambucana de 26 anos planejou a viagem por conta própria: “Os pacotes e agências eram muito caros. Fui descobrindo as melhores alternativas e adaptando ao meu estilo, às minhas necessidades. Minha professora de francês também deu informações preciosas sobre seguro saúde (contratei diretamente uma empresa francesa e foi bem mais barato que no Brasil)”.

7Nos campos floridos de Provins, cidade medieval francesa a 90km de Paris. Arquivo pessoal.

Tamires morou seis meses no departamento de Neuilly-sur-Seine, em Levallois-Perret, que fica na grande Paris e tem acesso fácil à capital francesa por meio de ônibus, trem e metrô. Na mesma região ficava a faculdade onde ela fez o estágio, no renomado grupo de pesquisa GRIPIC, na Escola de Ciências da Informação e Comunicação da Sorbonne (CELSA).

Diferenças, oui chérie

Diferente do Brasil, existe uma grande dificuldade de socialização e comunicação, pois os franceses são mais low profile que nós: “Eles acham um escândalo essa nossa mania de se abrir e contar a vida para pessoas que acabamos de conhecer. As relações interpessoais são muito mais formais”, explica Tamires.

Tudo fica mais fácil se você tem um amigo ou familiar em comum, porque aí as pessoas parecem achar você mais confiável.”

 

Então, é verdade que os franceses são antipáticos? “Eles são sem paciência. A quantidade de turistas é absurda e a dinâmica da cidade turística afeta o cotidiano dos moradores. Tem pessoas legais, outras nem tanto. Como em qualquer lugar”.

2No Café Deux Moulins, aquele mesmo do filme “O Fabuloso destino de Amélie Poulin”, no bairro Montmartre. Arquivo pessoal.

Um ponto positivo que Tamires destaca é que sua profissão e nível acadêmico são muito mais valorizados na França do que no Brasil. “A gastronomia também muda bastante. Você encontra produtos orgânicos de qualidade em qualquer supermercado.”

Tamires conta que o transporte público é fantástico e cheio de alternativas. “Você tem opções a qualquer hora do dia ou da noite. Porém, o metrô é antigo e muitas estações não têm acessibilidade para quem está com mobilidade reduzida.”

 

Meu estágio teria sido inviabilizado se não fosse a ajuda dos meus pais.”

 

Para achar acomodação, a bolsista utilizou o Airbnb durante todo o tempo que ficou por lá. “Os apartamentos em Paris e região são caros e infinitamente menores que no Brasil, mas são melhor equipados, em geral. Apesar do pouco espaço, é tudo muito funcional.”

E se o custo de vida é alto? Pode apostar que sim. “Especialmente para um estudante, o deslocamento, alimentação e aluguel são extremamente caros. A CAPES fornece auxílio extra para cidades muito caras, como Paris, mas como o endereço da faculdade não era exatamente lá, não tive esse direito.”

4Visitando o Palácio de Versalhes, ponto turístico obrigatório a 30 minutos da região central de Paris. Arquivo pessoal.

O departamento onde Tamires ficou é o mais caro da França! “Eu tive bolsa, mas não completa, então precisei controlar o orçamento. Seguir dicas de estrangeiros que moraram lá foi fundamental para economizar (como os dias de gratuidade dos museus).”

Contrastes da Cidade Luz

Tamires desembarcou na França em novembro de 2015, mês dos atentados terroristas em Paris. “Naquele dia, eu estava em um congresso em Portugal, mas quando voltei, foi muito impressionante.”

 

Policiais fortemente armados no aeroporto, revista de segurança pra entrar na faculdade,  nas lojas, nas ruas próximas aos consulados. Foi tenso.”

 

A partir do ocorrido, episódios da xenofobia já existente se tornaram ainda mais comuns. “Eu estava no Arco do Triunfo, com centenas de turistas. Havia um casal árabe com um bebê e dois policiais exatamente atrás deles, acompanhando todos os passos. Ficou complicado demais após os atentados.”

 

São coisas que um turista em cinco dias não percebe.”

 

1Tamires (segunda da esq. para dir.) com outros doutorandos no campus central da Sorbonne. Arquivo pessoal.

A jornalista avalia que Brasil e França compartilham aspectos negativos, como a desigualdade, o preconceito e a invisibilidade do outro. “Os contrastes são impressionantes. Turistas, arte e riqueza ao lado de refugiados, pedintes, imigrantes. Pegar o metrô todo dia e ver gente mudando de vagão por conta do mau cheiro de um mendigo que dormiu na estação porque não tem condição de ter uma vida digna é bem chocante.”

Balanço positivo

Tamires comemora os amigos que fez, com os quais mantém contato até hoje. “Fiz amizades fantásticas com pessoas da França, América Latina, Espanha, Portugal, Itália, Oriente Médio, Filipinas, Turquia e Austrália!”

3Tamires (de óculos) conta que foi mais fácil fazer amizade com pessoas de outras nacionalidades do que com os franceses, que são mais fechados. Arquivo pessoal.

Se ela curtiu o intercâmbio? “Amei a oportunidade de trocar conhecimentos em uma universidade maravilhosa, conhecer outras pessoas com histórias de vida completamente diferentes e poder sentir Paris com a perspectiva de quem mora lá, com seus cheiros, cores, sabores.”

 

Morar em Paris me deu outra perspectiva e eu passei a amar a cidade e a França.”

 

5Para Tamires, sentir a energia da Torre Eiffel foi algo inexplicável. Arquivo pessoal.

Como pesquisadora, o aprendizado valeu. “Foi muito rico para a minha tese. Os contatos, as discussões e as leituras me chamaram atenção para um contexto macro que interfere muito nas questões específicas com as quais estou trabalhando (sobre gênero, redes sociais e autonomia política com as mulheres no Sertão do Piauí).”

6Apresentando sua tese em um colóquio na Université Sorbonne Nouvelle Paris 3. Arquivo pessoal.

Recomenda a experiência? “Sim! Muito! Você se obriga a conhecer outras pessoas, a desenvolver suas habilidades de comunicação em uma língua estrangeira, além de abrir sua cabeça para mil possibilidades que surgem através do contato intercultural, com outras lógicas de pensamento e de organização social”.

Dicas, pra que te quero!

Confere as dicas preciosas da Tamires para fazer um intercâmbio na França:

  • Planeje tudo com muita antecedência, inclusive o visto;
  • Pesquise em grupos nas redes sociais de estudantes brasileiros que moram fora do Brasil. Eles compartilham dúvidas, informações, angústias e alegrias que vão ajudar você;
  • Aprenda Francês. O ideal é que você vá sabendo o idioma, mas Inglês e Espanhol são populares também;
  • Escolha bem a época do intercâmbio. Há muitos brasileiros que sofrem com o inverno francês;
  • Use o Navigo (cartão de transporte). É possível viajar até cerca de 80km de Paris com ele;
  • Cuide ao usar seu plano de telefonia móvel (o Free é um deles) fora da França; isso pode render uma conta astronômica no fim do mês;
  • Não se iluda pensando que vai conhecer todos os museus: selecione, frequente e aproveite cada um, mas ir a todos é quase impossível;
  • Faça um roteiro ou dê uma breve olhada no Google Maps sobre o trajeto que você vai fazer antes de sair. Algumas estações são mal sinalizadas e o parisiense, como muitas pessoas em grandes metrópoles, é um tanto impaciente em dar informações;
  • Cuide-se! Não ande com a bolsa aberta e não vacile em locais turísticos: muitos estudantes são roubados porque têm a falsa impressão de que tudo é completamente seguro na Europa, mas há batedores de carteira lá também;
  • Visite a Giverny, o festival de quadrinhos em Angouleme, o Vale de Loire e a Provins;
  • Se ligue na revista Télérama; ela sempre traz informações sobre festivais e programas baratos ou gratuitos;
  • Não deixe de provar a baguette tradition, crepes, vinhos, crème brulée, macarons e o crème de marron.


Uh la la! karlahill.com

Deu pra descobrir coisas que você não imaginava sobre a França? Fala aí o que você achou. E não deixe de acompanhar nossos posts da Série Intercâmbios! Até mais! 😀 Salut o/