Espiritualidade, cultura, simplicidade. Se tem um país pra você buscar o seu “eu” interior, esse lugar é o Nepal. Cercado pela cordilheira do Himalaia, a terra natal de Buda proporciona uma rica imersão cultural e um choque de realidade.

É o que nos conta o Aldrin, que viajou ao país asiático para um trabalho voluntário, o chamado intercâmbio social. Bora embarcar em mais um post da Série intercâmbios?

1Boudhanath Stupa, o maior templo budista para rezas e mantras fora do Tibete. Ficava bem ao lado do alojamento de Aldrin! Arquivo pessoal.

Novos rumos

O jornalista Aldrin Olimpio Cordeiro decidiu fazer o intercâmbio porque estava infeliz com algumas escolhas que havia feito na vida. “Eu trabalhava com Jornalismo havia oito anos. Porém, não me reconhecia naquele meio. Na época, eu estava sem perspectivas profissionais.”

 

Meu objetivo era ir para um lugar longe, bem longe, ficar sozinho e trabalhar sem esperar nada em troca.”

 

Após anos descontente com o mercado da comunicação em Curitiba, Aldrin resolveu usar um de seus talentos e optou pelo intercâmbio social. “Estudo inglês desde os 8 anos e dou aulas desde os 15. Decidi, então, ir ao Nepal dar aulas de inglês.”

2Aldrin com alguns de seus alunos do orfanato em Catmandu. Arquivo pessoal.

O paranaense de 31 anos pesquisou por um ano até que, em 2013, procurou a ajuda de uma agência. “Eles fizeram o intermédio na troca de informações com uma ONG da Índia que possui filial no Nepal. Porém, toda a parte de passagens, trechos, rotas, vacinação, idioma, preparação psicológica, eu fiz por minha conta.

 

Acreditava que ali poderia me desenvolver e ajudar o próximo com algo que realmente gostava.”

 

E por que o Nepal? “O Nepal me pareceu o mais longe que conseguiria ir para me encontrar. Sempre busco fazer algo além de somente turismo quando viajo e vi no voluntariado uma ótima chance de conhecer pessoas e uma nova cultura”.

Chegando lá

Aldrin ficou cinco semanas em Catmandu, capital do Nepal. “Dei aula para crianças de um orfanato e de uma escola municipal. Também lecionei para mulheres em situação de risco, entre 15 e 35 anos, num projeto de empoderamento feminino, o Women Empowerment.”

 

Não era apenas dar aulas: a gente conversava e trocava experiências de vida.”

 

O professor de inglês desabafa sobre a situação que encontrou. “As crianças no orfanato viviam em ambientes precários, com muito pó, camas antigas, banheiros sem estrutura de esgoto e banhos gelados de mangueira. O diretor era extremamente ríspido com elas, sugerindo até que eu poderia usar uma palmatória se quisesse.”

 

Isso me deixou péssimo no primeiro dia e pensei em desistir, porque achei que não saberia lidar.”

 

Alunos do orfanato cantando “Goodbye Song”, música ensinada pelo brasileiro. Arquivo pessoal.

Aldrin confessa que ficou balançado com a alta carga emocional do intercâmbio social. “As crianças foram super-receptivas, até porque, grande parte delas não tinha nenhum apoio ou apego emocional, nenhuma conexão com figuras mais velhas, no sentido de oferecer atenção e carinho. Foi bem pesado nesse sentido.”

Altos e baixos

O Nepal é um país extremamente religioso, onde hinduístas, budistas e muçulmanos convivem em harmonia (há somente 3% de católicos). “A diferença mais gritante foi o respeito à religião. Os nepaleses vivem a religião de uma maneira ímpar.

 

Eu não sou religioso, mas no Nepal aprendi o que é religião de verdade. Aqui no Ocidente, o conceito de religião é um produto.”

 

Já o transporte é um verdadeiro caos: “Um caos organizado, sem ruas estruturadas, sem semáforo, sem calçada, porém todo mundo dá um jeito de conviver. Vaca, cachorro, homem, galinhas,crianças, mulher, idosos, tuk tuk e eu no meio daquilo tudo. Uma maravilha!”.

3O caos organizado do trânsito de Catmandu. Arquivo pessoal.

Aldrin ficou hospedado na residência dos voluntários da ONG. “Era uma casa nepalesa normal, sem luxos, como TV e aquecimento, mas com internet surpreendentemente boa. O banheiro era diferente pra nós, porque o deles é aquele buraco mesmo, mas o dos voluntários era como o ocidental.”

Os voluntários também tinham o diferencial do chuveiro elétrico, mas que nem sempre funcionava: “Existe racionamento de energia elétrica três vezes ao dia – o que é normal para eles. Com isso, o banho ficava com água gelada, pois a energia solar não dava conta, afinal, estávamos pelos Himalaias e era dezembro, pleno inverno”.

 

Fazia muito frio! À noite, eu dormia de calça, casacão e touca.”

 

4Pôr do sol registrado no terraço do alojamento de Aldrin. Arquivo pessoal.

Na época, Aldrin pagou cerca de R$ 800 pelo total da hospedagem, com café da manhã, almoço e jantar inclusos. “A cozinheira era indiana e a comida era uma delícia. Comi muito bem lá. Mas dependendo da ONG, você pode optar sem as refeições.”

O custo de vida no Nepal chamou a atenção do professor logo de cara. “Ao chegar, estimei 200 dólares pra gastar na primeira semana e ver como seria. Quando recebi as fichas sócio-educacionais das minhas alunas do projeto de empoderamento, percebi o quanto eu desconhecia aquela realidade.

 

A renda média familiar delas, que viviam em famílias de 4 a 6 pessoas, era de 100 dólares para um mês inteiro.”

 

5Vestido a caráter, Aldrin posa com suas alunas do projeto de empoderamento feminino. Arquivo pessoal.

O choque levou à reflexão. “Cheguei no Nepal sem noção do que acontecia no país. Essa era uma realidade que eu não fazia ideia. Lá, a diferença é muito gritante entre ricos e pobres, não existe uma classe média. Isso me deixou bem triste quando me dei conta.”

Aldrin diz que, entre altos e baixo, o balanço é positivo: “O pior mesmo é a poluição. É muito poluído, barulhento e sujo devido aos carros. Isso é horrível. Por outro lado, há a cultura diferente, a alegria de viver, cores e aromas, um povo muito simpático, comida única, palácios e templos incríveis!”.

Dança típica nepalesa registrada por Aldrin em Pokhara, a 200km de Catmandu. Arquivo pessoal.

Gafes & recordações

Ao viajar para um país de cultura tão diferente, por mais que você pesquise, sempre pode rolar uma saia justa ou uma confusão:

“Os nepaleses fazem um sinal com a cabeça para dizer que ‘sim’, mas que para nós ocidentais parece ‘não’. Um dia, numa aula, expliquei várias vezes o mesmo tópico, os alunos balançavam a cabeça e eu achava que eles não haviam entendido. No dia seguinte, me contaram que aquilo era SIM! Morri de rir.” 😅

Em relação aos costumes, Aldrin relata um episódio que o fez refletir sobre o respeito às diferenças. A orientadora do seu projeto voluntário era uma garota muçulmana de 17 anos que estava noiva, prometida para um rapaz de uma família indiana.

“Ela me contou que, após se formar na faculdade, iria se casar com ele, mas que nunca haviam se visto. Eu falei que achava errado e que ela devia escolher com quem queria se casar. Ela explicou que estava muito feliz, porque, na cultura dela, foi a mãe do rapaz – a figura mais importante numa família – quem a escolheu.”

 

Eu fiquei com uma cara de tacho…”

 

A garota terminou falando: “Aldrin, se a mãe dele só quer o melhor para ele e ela me escolheu, isso para nós significa que eu sou a melhor!”. Na hora, ele ficou chocado mas, após um dia pensando, pediu desculpas. “Entendi que somos de culturas diferentes e que temos que respeitar tudo isso.

6Monges passando pela Boudhanath stupa, com os Olhos de Buda no topo, local preferido de Aldrin em Catmandu. Arquivo pessoal.

Experiência única

Mesmo com tantas diferenças, Aldrin curtiu paisagens incríveis e fez amizades duradouras. “Conheci outros dois brasileiros no projeto que viraram melhores amigos, irmãos. Viajamos para a Tailândia juntos. Também fiz amizade com nepaleses, franceses, suíços e holandeses.”

 

No Nepal, eu aprendi que amo dar aulas de inglês e faço isso até de graça. E acredito que seja esse o motivo de se trabalhar em algo na vida.”

 

Não é exagero dizer que o intercâmbio social no Nepal mudou a vida de Aldrin. “Foi extremamente importante para minha vida. Mudou tudo. Voltei, larguei o emprego triste que eu tinha e decidi buscar o que me fazia feliz como profissional. Um ano depois abri minha própria escola de idiomas.”

7Centro histórico de Catmandu ao fundo e a saudação fundamental, segundo Aldrin: “Namaste”. Arquivo pessoal.

A diferença de culturas é gigante, é outro universo. Eu recomendo essa aventura, porque quem for, vai se tornar mais humano.”

 

Dicas, pra que te quero!

Quer fazer intercâmbio no Nepal? Se liga nas dicas do Aldrin:

  • Tenha paciência e coragem;
  • Leia tudo o que conseguir sobre o país antes de ir, mas não se assuste: mesmo assim, você vai ter um choque ao desembarcar e ver aquela “bagunça organizada”;
  • Saiba se comunicar. Por melhor que seja seu inglês, você tem que se comunicar como eles, ou seja, um inglês misturado com dialetos e sotaque;
  • Beba água, muita água – e só compre água no supermercado;
  • Leve todos os seus remédios daqui: fazer um kit de primeiros socorros é uma boa;
  • Contrate o serviço para voar sobre os Himalaias;
  • Ande de tuk tuk;
  • Se perca entre os templos;
  • Dance em uma balada com os nepaleses;
  • Fale sempre “Namaste”;
  • Evite mostrar canelas, pernas, colo, peitoral. Afinal, você está no país deles e deve respeitar a cultura local;
  • Prove coisas somente em restaurantes, pois a higiene da comida é complicada.

 

Cuidado com comidas de rua. Se tiver coragem, vá em frente. Eu não fui. Depois você me conta como foi!”, brinca Aldrin.

 

O que você achou do Nepal? Já pensou em viver uma experiência transformadora como essa? Inspire-se! E não deixe de ler nossos posts sobre incríveis jornadas na Série intercâmbios. Até mais ☺