Já pensou que legal poder viver de pertinho uma cultura completamente diferente da sua, daquelas que a gente só vê pela televisão? Imagine conseguir ler e escrever com aqueles caracteres tão bonitos e intrincados que parecem desenhos! Aromas, sabores, sons… experienciar tudo pela primeira vez.

Conversamos com o Guilherme Moreira, que passou 3 meses no Japão estudando o idioma e fazendo uma imersão nessa cultura que é tão rica e diferente da nossa. 🎎

Viajar, é preciso!

Guilherme nunca tinha pensado em fazer intercâmbio. Na época (em 2010), estudava Publicidade e Propaganda na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul. Ele nos conta que o desejo surgiu quando seu irmão mais velho fez um intercâmbio para a Espanha e ele e os pais tiveram a oportunidade de visitá-lo.

 

Eu não era muito ligado em viajar para outro país até então e foi uma experiência muito, muito legal. A gente visitou Espanha e Portugal e foi tipo mindblowing. Aí eu voltei pra casa e pensei: quero fazer intercâmbio.”

 

Ele ainda não tinha pensado para onde queria ir. Na época, era fã de anime e da cultura japonesa e começou a avaliar a possibilidade de viajar para o Japão. A UFSM não tinha nenhuma parceria com alguma instituição de ensino japonesa, mas Guilherme já estava decidido sobre seu destino. Então, começou a pesquisar outras maneiras de conseguir ir pra lá. Considerou a possibilidade de tentar um visto para trabalho, mas descobriu que esses vistos só eram concedidos para descendentes de japoneses.

Ele achou uma agência de viagens em Porto Alegre e descobriu que eles tinham um convênio com uma escola de línguas de Tóquio. Acabou fechando com essa agência um curso de 3 meses de Japonês básico em Tóquio. E dá a dica: o período de 3 meses é o limite máximo desse visto de estudante. Ao todo, levou mais ou menos 6 meses planejando tudo.

 

Essa escola oferecia algumas opções de estadia, e como eu queria mergulhar mesmo na cultura, optei por ficar com uma família: a mãe, dois filhos e o marido. Foi uma imersão enorme; eu assistia televisão com eles e isso tudo me ajudou muito a aprender bem mais o idioma.”

 

JAPÃO1A gigante Tóquio: visão geral da região norte de da cidade. Arquivo pessoal.

Na terra do Sol nascente

Antes de viajar para o Japão, Guilherme já estudava japonês por conta própria com a ajuda de vídeos no Youtube. “Eu achava que eu sabia algo até eu chegar lá e descobrir que eu não sabia nada (risos). É bem curioso o quanto a gente consegue se comunicar. Na casa da família a mãe era a única que falava bem pouco de Inglês e ela tinha um telefone celular. Eu acabei comprando um lá também, então a gente conversava com o tradutor do telefone. No início era assim.”

Guilherme conta que curtiu muito a escola, que eles tinham uma boa didática e ele aprendeu rápido, também porque era muito interessado.

 

Algo curioso é que, de tanto eu assistir anime, eu estava muito familiarizado com o idioma, só faltava eu estudar um pouco de gramática mesmo e aprender a escrever o caractere silábico deles (como as crianças começam a aprender a escrever lá). E acho que no final do terceiro mês eu já estava conseguindo me comunicar bem.”

 

O idioma não foi uma barreira, pois a cidade é bastante acessível para os estrangeiros, com informações disponíveis em Inglês. Na escola, pôde conhecer pessoas de diversos países que viajaram para o Japão com o mesmo objetivo que ele.

“Tenho até hoje amigos de outros países: um sueco, um italiano, colombiano, norte-coreano e japoneses também, porque eles [a escola] promoviam alguns encontros entre [moradores] locais e estudantes.” Os colegas eram em sua maioria estudantes no fim do Ensino Médio ou no começo na graduação, um pouco mais jovens que ele, que na época tinha 24 anos.

 

Guilherme garante que é importante conhecer um pouco sobre a cultura japonesa para não cometer nenhuma gafe na viagem. No Japão, é costume milenar não entrar com os sapatos na casa, por higiêne e por respeito ao espaço. A família com quem ele se hospedou tinha um cachorro e, por isso, andavam de chinelos pela casa. – 

 

No quarto, no entanto, não era permitida a entrada do cachorro ou a utilização de calçados, e ele, sem querer, entrou de chinelos no quarto. “É muito bacana essa troca, esse é um costume que eu trouxe pra minha vida, pra minha casa aqui em São Paulo: eu deixo meu sapato na porta e ando de chinelinhos.”

Tóquio: a megalópole

A rotina de Guilherme iniciava cedo: as aulas começavam às 9h e, como ele morava longe, precisava viajar 1h30 de metrô e trem para chegar lá. De qualquer forma, afirma que a eficiência desse sistema de transporte é um exemplo, rápido e integrando toda a cidade, então a viagem era tranquila.

 

O transporte é caro; era o meu maior gasto mensal disparado, até porque eu morava no subúrbio. Tóquio é bizarramente grande, a região metropolitana tem 30 milhões de habitantes.”

 

JAPÃO2O Bairro de Shibuya, onde Guilherme gostava de passear, em frente ao maior cruzamento de pessoas no mundo. “A cada troca de semáforos, 2 mil pessoas atravessam a rua.” Arquivo pessoal.

 

A importância de morar com uma família foi além da imersão cultural; foi a forma mais econômica de estadia, nessa que é umas das cidades mais caras do mundo para se viver. – 

 

A empresa que fechou o intercâmbio fez esse meio de campo e a escola providenciou as acomodações, selecionou as famílias. Isso reduziu muito os custos, porque a estadia e o custo de vida em Tóquio são muito caros. Além disso, ele tinha duas refeições inclusas com a família (café da manhã e jantar). Fora a redução nos gastos, ele garante que a troca e a experiência com a família foram incríveis.  

Essa imersão toda também garantiu a Guilherme seu tema do trabalho de conclusão de curso: “Como publicitário, na época, eu fiquei encantado com a televisão japonesa, porque eu tive a chance de assistir novela com a mãe da família. Inclusive, quando eu voltei, acabei fazendo meu TCC sobre os comerciais de TV japoneses.”

JAPÃO3Guilherme na saída do metrô no bairro de Shibuya. Arquivo pessoal.

As aulas terminavam às 13h; depois disso ele tinha um tempo livre para passear e conhecer a cidade. Geralmente os colegas almoçavam juntos e decidiam por algum programa, passear por algum bairro. “Deu pra conhecer bastante a cidade, alguns bairros a gente gostava bastante de ir, acabava visitando com freqüência; à noite a gente ia nos bares.” E ele garante que era tranquilo passear sozinho, porque a cidade é muito segura.

 

Nossa, era muito seguro! Acho que se tem algum lugar seguro, é Tóquio. Se tu pensar na concentração de pessoas que existem lá, a taxa de criminalidade é quase nula.”

 

Com apenas 3 meses para conhecer a megalópole, Guilherme nos conta que não teve tempo nem interesse de viajar para outras cidades. Ele garante que o intercâmbio vale muito a pena e recomenda, apesar do preço salgado: “Eu fazia estágio na época e consegui juntar uma grana pra comprar minhas coisas lá. Mas sim, meus pais bancaram o intercâmbio, que foi algo em torno de 25 a 30 mil reais [com o curso, hospedagem, passagens, alimentação…]. Não é um intercâmbio barato”.

Para ele, a imersão na cultura propiciou aprendizados pra levar para o resto da vida, como a história a seguir:  

“Andando na calçada, a gente saía da escola e ficava um grupo conversando na calçada. E isso, para os japoneses, não pode; a gente atrapalhava quem estava passando. Um dos funcionários da escola veio falar com a gente pra sairmos e a galera não entendia porque não podíamos ficar lá. Aqui em São Paulo, hoje, se eu paro pra conversar com alguém, eu puxo a pessoa para um canto pra não ficar parado no meio da calçada.”

 

Isso é um exemplo de como os japoneses têm esse conceito de coletividade. Nas pequenas coisas eles pensam no coletivo.”

 

“É muito importante saber pedir licença lá. Eu descobri e me senti muito ignorante depois. No metrô cheio, eu não conseguia sair e eu ia meio que acotovelando as pessoas e achava que esse era o jeito de sair do metrô lotado. Até que eu aprendi a pedir licença, e aí a galera abre o mar para você atravessar. As pessoas são muito educadas. Então é só pedir licença que todo muito vai abrir caminho.”

JAPÃO4Casamento tradicional em templo no parque Meiji, no bairro de Shibuya. Arquivo pessoal.

Voltando pra casa

Guilherme conta que a volta para casa foi um pouco difícil: “Eu fiquei triste (risos). Aquela depressão comum de voltar de uma viagem assim. Na época eu voltei bem imerso na cultura japonesa e queria tentar manter ao máximo. Algumas coisas eu comia de hashi em casa”.

Para manter o idioma fluente, ele conversava com uma amiga japonesa todas as semanas, mas, por causa da rotina, não conseguiram manter contato. Ao mesmo tempo, ele garante que estava cansado e que foi bom voltar: “Em alguns países, você pelo menos se camufla no meio das pessoas, mas no Japão não tinha como”.

Dicas, pra que te quero!

Se liga nas dicas do Guilherme para quem pensa em fazer intercâmbio no Japão:

  • Opte pela hospedagem com uma família (ao invés de prédios de estudantes) para ter essa imersão completa na cultura;
  • O custo de vida no Japão é caro; prepare o orçamento;
  • Contrate um despachante para ajudar com a documentação: a burocracia do país pode dificultar que você consiga o visto (a empresa de intercâmbios que Guilherme contratou tinha um profissional para isso e ele garante que ajudou muito);
  • Aprenda sobre a cultura antes de viajar, para não cometer nenhuma mancada: conhecer sobre a linguagem verbal e corporal ajuda.

Esperamos que a história do Guilherme tenha te inspirado a conhecer e vivenciar novas culturas. Curtiu o post? Não deixa de comentar e conferir outras experiências da Série Intercâmbios. 😉 Até a próxima!