“Viver de arte não enche barriga”. “Você precisa de uma profissão de verdade”. Quem pensa em estudar Artes já deve, em algum momento, ter escutado alguma dessas frases, seja dos pais, parentes ou amigos.

Vamos contar um pouco sobre as histórias da Rochele e do Alessandro, que tomaram a difícil – mas recompensadora – decisão de se entregarem às Artes!

Difícil escolha

Alessandro Cenci mora em Lajeado, no interior do Rio Grande do Sul, e nos conta como foi a caminhada profissional dele: “Iniciei alguns cursos universitários, como Arquitetura e Letras antes de optar pela Publicidade, no qual me formei. Nesses cursos eu via a possibilidade de aprender sobre poética, fotografia, semiótica, desenho. Aqui se percebe a minha confusão: se eu queria aprender sobre áreas relacionadas às Artes Visuais, por que não fazer o curso de Artes? Na época eu pensava que poderia ser tudo, menos artista plástico. Hoje não me vejo como outra coisa”.

10686667_1474912126101024_6832747386311044509_nPintura de Alessandro Cenci. Arquivo pessoal.

Ele nos conta que não teve o menor interesse em saber ou mesmo se informar sobre o quanto ganhava um Médico, um Professor ou um Advogado, por exemplo, e fazer uma comparação entre os cargos, rendas e profissões. No entanto, afirma que acabou descobrindo com o tempo o quanto pode custar, em termos financeiros, as escolhas profissionais que não avaliam isso, como foi o caso dele.

 

Pode custar muito caro fazer aquilo que se gosta e pagar esse preço é uma opção pessoal.”

 

Rochele Zandavalli saiu da Serra Gaúcha para estudar Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em Porto Alegre. Lá ela conheceu o Núcleo de Fotografia da UFRGS e o laboratório de fotoquímica. “Nesse lugar eu comecei meus estudos em fotografia analógica; foi lá também que comecei a dar aulas. Pedi transferência para o Instituto de Artes da UFRGS e minha produção sempre envolveu fotografia. Eu gosto de misturar técnicas e suportes, então acho que foi ótima essa formação pra mim.” Rochele continuou os estudos fazendo mestrado em Poéticas Visuais na mesma universidade.

oculto-2Rochele Zandavalli. Oculto, 2009. Backlight. 75x110cm. Arquivo pessoal.

E a família?

Toda a família já sabia que Alessandro tinha talento para as Artes. Desde pequeno desenhava muito bem, e eles imaginavam que ele pudesse trabalhar com algo relacionado a isso. Ele nos conta que os pais, por serem de uma geração bastante distante da sua, demostraram preocupação por não saber direito o que envolvia o curso que ele escolheu, mas que lhe deram o direito de livre escolha.

Hoje vejo que um bom diálogo com todas as pessoas próximas é sempre favorável, mas a escolha é só sua. Por mais que o amem, as pessoas não sabem o que abrigam as suas mais profundas aspirações e, assim, não podem presumir as escolhas por você.”

10646890_1483303415261895_2232497936968916036_nTrabalho com lona e adesivo, de Alessandro Cenci. Arquivo pessoal.

Rochele nos conta que sua tentativa em fazer Publicidade e Propaganda aconteceu no sentido de buscar uma formação mais promissora economicamente do que as Artes, mas foi frustrada porque ela não se sentia confortável com o propósito do trabalho na Publicidade: “Acho que é uma das áreas mais diretamente responsáveis pela manipulação dos valores, pela mercantilização dos desejos. Então tive que enfrentar certa resistência e apreensão por parte dos meus pais, mas eles nunca me proibiram”.

Ela afirma que demorou quase 10 anos para seu trabalho ser reconhecido e melhor colocado no mercado.

 

Mas acho que hoje em dia não existe profissão garantida e as oportunidades estão pulverizadas em diversas áreas. É preciso ser competente e interessado, em qualquer área, então acho que é fundamental nos dedicarmos ao que nos interessa, ao que acreditamos. Tenho certeza que foi a melhor escolha ter me tornado artista; meu reconhecimento vem do amor que tenho pelo que faço.”

 

futuro-revisitadoRochele Zandavalli. Futuro Revisitado. 2005. Fotografia colorizada. 45x75cm. Arquivo pessoal.

Alessandro dá a dica para quem está com o coração pulsando pelo mundo das Artes: “Experimente e identifique a paixão da sua vida o mais rápido possível. Uma vez que você saiba o que ama fazer, poderá começar a pensar em maneiras de rentabilizar seu ofício imediatamente. Isso vale para todas as áreas.”

Alessandro conta que viveu a experiência de fazer algo que me pagava bem, mas exigia muito esforço de sua parte. “O resultado foi gastar o que eu ganhei a mais com o restabelecimento da minha saúde, mais tarde.”

Rochele conta que, agora que é mãe, compreende que é necessário entender a preocupação dos pais. “É preciso dialogar e mostrar que hoje em dia existem oportunidades nessas áreas ligadas às Artes Visuais.” A dica dela é pensar em uma formação em Artes que inclua conhecimentos mais aplicáveis ao mercado, como no caso dela, com a fotografia.

reverRochele Zandavalli. Rever: retratos ressignificados. Fotografia apropriada e bordada. 2009-2012. Arquivo pessoal.

E esse tal de mercado?

Alessandro nos conta que não abandonou completamente as atividades da sua área de formação, mas reduziu. “Hoje eu mesclo as atividades de publicitário, ilustrador e artista plástico. Tenho algumas encomendas dentro de uma certa regularidade, pois já se vão quase vinte anos que trabalho dessa forma. Mas, em geral, com arte você trabalha a longo prazo em projetos seus e a curto prazo com encomendas”.

Rochele começou a dar aulas de graduação depois de concluir seu mestrado, além de cursos de extensão. Além disso, atualmente trabalha como fotógrafa da universidade.

 

E vejam, eu fiz mestrado seguindo o conselho dos meus pais. Deu muito certo, foi importantíssimo pra minha vida profissional. Meu sustento vem mais da fotografia do que das Artes Visuais. É muito raro no Brasil artista que vive da venda de sua obra; a maior parte tem outros empregos relacionados à área, dão aulas, oficinas, participam de projetos.”

 

Alessandro afirma que os espaços no mercado de trabalho sempre precisam ser criados em algum nível. Ele optou por produzir seus trabalhos de maneira independente e, a partir das suas mostras, foi criando uma rede de contatos.

1Alessandro (de vermelho) instalando uma de suas esculturas. Arquivo pessoal.

“Faço trabalhos para decorar ambientes; ao mesmo tempo, desenvolvo uma série que dificilmente será usada com esse mesmo fim. Também já dei aulas, que é uma boa maneira de aplicar e difundir as habilidades e conhecimentos que se tem.”

10422562_1528728517386051_8887300953509233989_nEscultura feita de sucata/metal da Série Encontro, de Alessandro Cenci. Arquivo pessoal.

No entanto, Alessandro garante que a condição geográfica e a falta de profissionais que desempenhem outras atividades ligadas ao segmento de cultura e arte dificultam bastante as coisas para ele, que mora no interior.

Rochele admite que é difícil falar sobre o mercado de trabalho, mas que ela fala a partir de sua trajetória e experiência como professora.

 

Economicamente e em termos de cultura e arte, é um momento muito ruim no país, mas esse caos político e social incentiva os artistas a terem ainda mais força para contestar tudo isso. A arte brota na dificuldade.”

 

Editais e oportunidades voltadas para as Artes estão mais raros ou oferecendo menos recursos, admite. Por isso, ela ressalta a importância de aproximar a arte de áreas mais aplicáveis ao mercado, como fotografia, audiovisual, design, moda, consideradas mais promissoras economicamente.

oculto-1Rochele Zandavalli. Oculto, 2009. Backlight. 75x110cm. Arquivo pessoal.

Nesse sentido, ela conta que gostaria de ter sabido que não teria como se sustentar somente a partir da arte, mas sim de seus derivados. “Acho que eu já sabia, na real, mas ser artista é inevitável, você meio que nasce assim (risos). Artista no Brasil vende muito pouco, é muito mais glamour do que grana.”

 

Acho que quando alguém escolhe ser artista, prioriza outros tipos de valores, que não são somente os mercadológicos. Ser artista é também questionar o valor das coisas, principalmente os valores sociais e econômicos. Distorcemos nossa noção de valor. Nem tudo é valor econômico, existem valores envolvidos na arte que são ainda mais importantes. E nós damos um jeito. Como diz o ditado: a gente ganha pouco, mas se diverte.”

 

Você pode conhecer mais sobre o trabalho do Alessandro aqui e o da Rochele aqui!

E aí, curtiu conhecer um pouco mais da vida de artista com as histórias do Alessandro e da Rochele? Ficou a fim de estudar Artes? Nos conta o que você pensa nos comentários. 👊