Seja pela busca de um curso de graduação que não tem na sua região, por causa de uma vaga pelo Sisu, pela procura de novas experiências ou para estudar em determinada universidade, mudar de Estado é uma escolha.

 

Pode ser dolorido ficar longe de quem a gente ama, mas a mudança pode valer (muito) a pena! –

 

Conversamos com Gabriel e Kelly, que mudaram de Estados para poder cursar a graduação dos sonhos e nos contaram como foi essa experiência difícil, mas enriquecedora, de deixar a família e os amigos e, em compensação, conhecer muitas outras pessoas. 😉

A escolha

Gabriel Pascutti se mudou para Porto Alegre com 20 anos, no começo de 2015. Natural de Goiânia, ele nos conta que a ideia de se mudar surgiu em 2013, quando ele cursava Engenharia Civil na PUC Goiás (Pontifícia Universidade Católica de Goiás).

 

Após cursar o primeiro ano, percebi que estava no caminho errado. Decidi trocar para Engenharia de Produção. O curso era pouco conceituado na região, tanto na universidade federal quanto nas universidades particulares.”

 

Há algum tempo ele vinha amadurecendo o projeto de mudar de cidade e viver a experiência de morar sozinho:

 

Juntei o útil ao agradável e decidi que este era o momento de vivenciar essa vontade”.

 

Natural de Cuiabá, Kelly Cruz conta que sua motivação para mudar de Estado foi a busca por uma formação acadêmica de qualidade e que fosse gratuita, já que não teria condições de pagar um curso de Medicina (seu curso dos sonhos) em uma universidade privada.

 

Optei pela UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre) por saber que, além de excelentes professores, possui ótima infraestrutura, laboratórios de ponta e um complexo hospitalar de referência nacional, que é a Santa Casa de Porto Alegre.”

 

Sem lenço e sem documento, eu vou!

Como diz a canção “Alegria Alegria”, de Caetano Veloso, “Eu Vou! Por que não?” A decisão sobre onde ir “foi mais sorte do que juízo”, conta Gabriel. Toda a sua família é de São Paulo, mas ele morava em Goiânia desde os 7 anos. Sua ideia inicial era estudar na USP (Universidade de São Paulo) ou na UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos).

 

Ele tirou notas altas no Enem, ampliando seu leque de escolhas em Universidades Federais espalhadas pelo país. – 

 

Gabriel pôde contar com o aconselhamento de um professor de Engenharia de Produção da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) sobre qual universidade escolher. Ele conta que levou em consideração não apenas as universidades melhores conceituadas, mas também a qualidade de vida das cidades.

“Depois de uma análise minuciosa, optei pela UFRGS.”

Para Kelly, a grande influência para a mudança para Porto Alegre foi uma professora do Ensino Médio que se formou na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e a aconselhou a se mudar para a cidade.

 

No início até considerei muito mais a UFRGS; cheguei a fazer o vestibular, inclusive, mas a UFCSPA foi ‘quem’ de fato ganhou meu coração e não me arrependo nem um pouco da escolha, embora considere que entre UFCSPA e UFRGS não há escolha errada, principalmente se tratando do meu curso, ambos os cursos de Medicina das duas universidades são excelentes.”

 

2A turma de Kelly, AD2021, após o Culto Ecumênico em homenagem aos doadores de corpos à Universidade. Arquivo pessoal.

E a família, como fica?

Gabriel conta que sempre foi muito incentivado a buscar este tipo experiência, pois seus pais o estimulavam a sair de Goiânia para buscar melhores universidade. A distância de Porto Alegre e a dificuldade nas opções de voos, porém, causou uma certa resistência em relação à escolha pela UFRGS.

Meus familiares preferiam que eu optasse por uma universidade em Estados mais próximos como São Paulo, Minas Gerais ou Rio de Janeiro. Mesmo assim continuaram apoiando minha escolha e o fazem até hoje. Me incentivam a continuar aqui e a buscar mais experiências em outras localidades, dentro e fora do Brasil.”

 

Kelly afirma que a família foi super compreensiva sobre sua decisão pela mudança de Estado buscando uma formação de qualidade. Ela conta que as oportunidades possibilitadas pelos hospitais de Porto Alegre no aprendizado dos estudantes de Medicina foi o fator determinante para a escolha:

“Por ter um número considerável de hospitais especializados em determinadas áreas, como trauma e emergência, oncologia, transplantes, cardiologia, etc. Essa diversidade tão grande não se tem na minha cidade natal”.

3Kelly (terceira da esquerda para a direita) com os colegas de faculdade. Arquivo pessoal.

Adaptação

Gabriel conta como foi o processo de adaptação em um Estado diferente. Ele nunca havia viajado para Porto Alegre e nem tinha considerado morar na cidade antes.

Conhecia a fama da cultura um pouco mais fechada da Região Sul do país. No entanto, para mim foi muito fácil. Principalmente o processo de adaptação ao convívio social. Claro que tive que sair muito da minha zona de conforto, pois tinha acabado de chegar em um lugar em que não conhecia ninguém.”

 

Ele conta que, além de buscar se aproximar dos colegas de turma, entrou para a Associação Atlética da Escola de Engenharia, o que possibilitou contato mais próximo com estudantes de diversos outros cursos da universidade. –

          

Ele ressalta que o clima foi um fator complicador nesse processo de adaptação:

“O aspecto que tive maior dificuldade foi a diferença climática. Saí de um Estado onde as 4 estações não são bem definidas e o calor é predominante durante o ano. Meu primeiro inverno foi realmente muito difícil, parecia que nada era capaz de me aquecer, mas com o tempo fui me acostumando”.

Kelly conta que a adaptação foi difícil, e ainda é. O custo de vida da cidade é elevado e a pesada carga horária do curso de Medicina não permite que o estudante consiga trabalhar ou estagiar com facilidade, principalmente no início do curso.

1Estudando (e muito) Embriologia, mas bem acompanhada. Arquivo pessoal.

“Não sou de família abastada, então é complicado conseguir me manter em Porto Alegre. A universidade fornece assistência estudantil remunerada, mas é insuficiente, pois a minha universidade tem um ponto extremamente negativo, que é a falta de um Restaurante Universitário. Então, é difícil lidar com a questão financeira, ainda mais estando sem família em Porto Alegre. Mas a gente aprende a se virar, se apertar de um jeito e de outro, alguns colegas da faculdade acabam nos adotando e nos ajudando e então as coisas vão dando certo, mas é bem difícil. E claro, lidar com a saudade principalmente da mãe  é horrível, mas daí a gente vai lançando mão das redes sociais e das ligações intermináveis de celular para tentar driblar isso.”

Valeu a pena?

Gabriel acredita que todos deveriam passar por essa experiência:

Meu crescimento pessoal foi exponencial nesses quase 2 anos, e sem dúvida recomendaria isso para todos. Morar sozinho não é um mar de rosas, as responsabilidades aumentam, tenho que perder tempo com afazeres domésticos e é bem ruim estar longe da família e dos amigos de longa data, em alguns momentos a saudade é grande, assim como a vontade de acordar num domingo e almoçar com os pais”.

Ao mesmo tempo, ele garante, ganhou amigos que vai levar para a vida toda, conheceu uma cultura muito contrastante da sua e, graças a essa experiência, tem agora uma visão de mundo nova, juntando olhares diferentes.

 

Hoje vejo que perdi a vontade de me manter em um lugar por muito tempo, mudei muito de mentalidade ao mudar de cidade, e se, há 4 ou 5 anos não me imaginava saindo de Goiânia, hoje não imagino em que lugar estarei no futuro, só sei que não será em Porto Alegre, não por não gostar desta cidade, mas por perceber as vivências que não terei se eu ficar apenas aqui.”

 

Para Kelly, apesar das dificuldades que enfrentou e ainda enfrenta, a experiência vale a pena sim:

“Faria tudo de novo se necessário. Quem pensa em fazer o mesmo deve analisar muito bem se está disposto a passar por algumas dificuldades que existem fora do núcleo familiar, como saudade, insegurança, saber lidar com pouco dinheiro, principalmente se a família de origem não possuir uma certa estabilidade financeira”.

Ela garante: se depois dessa reflexão você continua acreditando que vale a pena, siga em frente, porque as recompensas virão.

“Com o tempo se conhece gente nova, amigos que viram família, somos acolhidos pelas pessoas da cidade nova. Vai ter vezes que vamos querer largar tudo e voltar para casa, achando que foi a pior decisão da vida, mas estes momentos passam. No meu caso, cada vez que vejo um paciente sorrir ou assisto uma superaula, me sinto mais disposta a continuar seguindo em frente e então se vai embora qualquer vontade de desistir de tudo.”

Você está enfrentando o mesmo dilema que a Kelly e o Gabriel? Pensa em trocar de cidade ou Estado e está com medo? Conheça um pouco mais sobre as Capitais do Brasil (e perca um pouco do receio sobre a mudança) acompanhando a nossa série Conexão Cultural, onde a gente te mostra várias atividades legais e diferentes que você pode fazer! Até mais 😉